Uma escolha no balcão
"Nunca, desde 1989, quando Celso de Mello foi para o Supremo, a escolha de um ministro da suprema corte foi tão vulgarizada, rebaixada à condição de mercadoria no varejo da política fisiológica", afirma a jornalista Tereza Cruvinel
Como repórter ou colunista política, acompanhei as indicações e sabatinas de todos os atuais ministros do STF, a partir da escolha de Celso de Mello pelo ex-presidente José Sarney, em 1989.
Por isso posso dizer: nunca, desde então, a escolha de um ministro da suprema corte foi tão vulgarizada, rebaixada à condição de mercadoria no varejo da política fisiológica. Se Jair Bolsonaro indicar mesmo o desembargador Kassio Nunes, do TRF-1, não terá sido por seu notório saber jurídico, mas para agradar ao Centrão, marcar ponto com o Nordeste e paparicar a própria corte, que receava a escolha de um nome da ala mais ideológica do governo, como os ministros André Mendonça ou Jorge Oliveira.
Esta foi uma escolha articulada na bacia do pragmatismo: o desembargador não é magistrado de carreira, chegou ao cargo na vaga reservada a advogados. É bem relacionado com o mundo político, habilidoso, jeitoso. E torce o nariz para a Lava Jato. Por estas qualidades, e não pelo saber jurídico, o Centrão o apadrinhou, Bolsonaro aceitou e isso é bom para os dois. Por reverência ao cargo, os presidentes anteriores nunca fizeram barganhas na escolha de ministros do STF.
Bolsonaro fez uma pajelança de apresentação, levando o ungido à casa do ministro Gilmar Mendes, para onde foram convidados também o ministro Dias Toffoli e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Nunca vi presidentes discutirem com os membros da corte o nome do novo ministro. E muito menos com o presidente da Casa onde ele será sabatinado.
Gilmar e Toffoli teriam aprovado, mas Bolsonaro pisou na bolado deixando de fora do encontro o novo presidente do STF, Luiz Fux. Segundo a colunista Mônica Bergamo, ele vem externando sua decepção, alegando que esperava nome com mais estofo. Mas não gostou mesmo foi de ter sido excluído da articulação.
Enfim, viva o pragmatismo. Celso de Mello, o decano que é tão louvado por sua erudição, pela consistência de seus votos e pela brilho intelectual de suas falas, e que irritou tanto Bolsonaro ao determinar que preste depoimento presencialmente sobre o caso Moro, será substituído por um desembargador sem história na magistratura. Pragmático. Chegou aonde chegou com apoio de petistas do Piauí e foi nomeado pela ex-presidente Dilma. Nem por isso, deixará de montar no cavalo selado por Bolsonaro.
Por pragmatismo, Bolsonaro deixou também de nomear um ministro "terrivelmente evangélico". Explicou à bancada que iria escolher um nome afinado com as ideias do governo. Não disse que seria um católico. Isso não vem mesmo ao caso, num Estado laico como a Constituição diz que deve ser o Brasil, apesar de a religião estar permeando tanto as relações de poder na era bolsonariana. Com a escolha, marcou pontos com a base aliado e pelo menos com uma parte do Supremo.
Uma escolha vulgar, não pelo escolhido, que nem conheço, mas pelo método. Mas quem se surpreende com a vulgaridade que Bolsonaro faz sempre questão de exibir e praticar?
MAIS LIDAS
Cármen, Kassio e Toffoli serão "fiéis da balança" em sessão sobre Moraes
Os nomes do PT que correm por fora para suceder Lula
Nome de operação da PF contra Lulinha incomoda entorno de Lula
A POLITICA COMO ELA é (POR : TEREZA CRUVINEL)
Tereza Cruvinel atua no jornalismo político desde 1980, com passagem por diferentes veículos. Entre 1986 e 2007, assinou a coluna “Panorama Político”, no Jornal O Globo, e foi comentarista da Globonews. Implantou a Empresa Brasil de Comunicação - EBC - e seu principal canal público, a TV Brasil, presidindo-a no período de 2007 a 2011. Encerrou o mandato e retornou ao colunismo político no Correio Braziliense (2012-2014). Atualmente, é comentarista da RedeTV e agora colunista associada ao Brasil 247; E colaboradora do site www.quenoticias.com.br