Quem está com Lula e quem está com Flávio? Cobradas nas redes, celebridades entram na guerra digital do segundo turno

22 de outubro de 2026 37

A poucos dias da decisão final na disputa pelo Palácio do Planalto, o presidente Lula (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, presidenciável do PL, mobilizam declarações de artistas, atletas e influenciadores digitais na caça ao voto dos indecisos. As celebridades têm se manifestado em favor deles nas redes sociais e participado de eventos. A movimentação se intensifica em meio à pressão de fãs e seguidores pelo posicionamento dessas personalidades, que temem a perda de público no cenário de alta polarização.

Desde o primeiro turno, Lula parece angariar mais artistas, particularmente entre nomes da MPB como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Maria Bethânia, Djavan, Fafá de Belém e Daniela Mercury. Flávio reagiu nos últimos dias com uma ofensiva sertaneja. Anteontem, ele se reuniu em Goiás com cantores do gênero como Gusttavo Lima, Zezé Di Camargo, Murilo Huff, Jorge (da dupla com Mateus), e Marrone (da dupla com Bruno).

Vídeos dos artistas com o candidato do PL devem ser disparados nas redes sociais nos próximos dias, em uma estratégia organizada pelo influenciador Pablo Marçal (PRTB) que também inclui uma live hoje com o jogador de futebol Neymar. O plano é usar a popularidade das celebridades para intensificar a presença digital de Flávio na reta final da campanha e atingir eleitores que não acompanham o noticiário político, além de fazer frente à reação digital de Lula no segundo turno, orquestrada pelo deputado André Janones (Rede-MG).

Contraponto tardio

O mergulho de Flávio no sertanejo também é um contraponto às manifestações que a classe artística tem feito a favor de Lula desde o início do período eleitoral. No primeiro turno, o presidente recebeu personalidades da música, da TV e do teatro num evento na Fundição Progresso, no Centro do Rio. No último fim de semana, cantores como Caetano, Gil, Emicida e Xamã puxaram atos em apoio ao petista em Rio, São Paulo e Salvador.

A campanha petista passou a incentivar manifestações desse tipo e a intensificar a veiculação de jingles adaptados de músicas populares. Foram usados, por exemplo, “o Rap do Silva” e a canção “Lo que pasó a Hawaii”, do cantor porto-riquenho Bad Bunny, cuja letra fala de soberania ante ameaças dos EUA. Lula angariou apoio até de fora do país, como o da banda americana The Strokes e do cantor uruguaio Jorge Drexler. Ontem, o inglês Roger Waters, ex-vocalista do Pink Floyd, divulgou um vídeo pela reeleição de Lula em que chama Flávio e o ex-presidente Jair Bolsonaro, de “babacas”.

Efeito limitado

A estratégia, no entanto, tem alcance limitado para as campanhas porque acabam mirando em nichos de eleitoras “já convertidos”, avalia Marcelo Vitorino, professor de marketing político da ESPM:

— Nesse momento, a campanha de Lula está indo na sua base principal, ligada aos cantores da MPB, enquanto Flávio busca os sertanejos. Se eu quero crescer, tenho que ir para o público que não tenho.

Atores como Sonia Braga, Debora Bloch, Malu Mader, Sophie Charlote, Gregório Duvivier, Adriana Esteves e Vladimir Brichta também declararam voto em Lula, assim como as apresentadoras Fátima Bernardes e Angélica. Flávio tem menos apoios declarados, mas registra os do ator Victor Fasano, do cantor Leonardo e da ex-apresentadora Mara Maravilha, além dos ex-BBBs Jonas Sulzbach e Davi Brito. A campanha do senador busca aumentar esse elenco agora, perto da decisão.

Personalidades que se mantém distantes da disputa política sofrem cobranças, amplificadas pelas redes sociais. Vários preferem defender princípios sem mencionar um dos candidatos. Um caso notório foi o de João Gomes, cujo silêncio foi questionado por fãs. Uma de suas parceiras, a cantora Flora Matos, chegou a ameaçar a retirada das plataformas de uma música dela gravada por ele. O cantor acabou lendo num show uma carta em que se diz a favor da democracia, do SUS e das políticas de cotas nas universidades.

O influenciador Felipe Bressanim, o Felca, também foi cobrado nas redes por publicar nesta semana um vídeo sobre bullying e fobia social, frustrando expectativas de conteúdo político. “A cinco dias da eleição, após criar uma expectativa colossal, solta um vídeo essencialmente sobre ele”, escreveu o youtuber Felipe Neto, apoiador de Lula. Popular desde a publicação de um vídeo sobre “adultização” de crianças, em 2025, Felca já explicou que evita declarar sua predileção política por considerar que a resposta poderia afastar parte de seu público.

Celebridades temem os riscos de uma vinculação direta e duradoura com políticos, observa Marco Aurélio Ruediger, diretor da Escola de Comunicação da FGV:

— Há uma questão econômica, mas ela não atua isoladamente. Nesse contexto de comunicação digital, em que tudo o que se posta é printado, espalhado e registrado, qualquer posicionamento político cria uma vinculação muito forte, que se estende no tempo. Há uma distância grande entre votar e se vincular publicamente à campanha.

Por outro lado, também há um “preço” a ser pago pela omissão num ambiente altamente polarizado e influenciado pela cultura do “cancelamento”, diz Letícia Capone, diretora de pesquisa do Instituto Democracia em Xeque:

— Há um custo na falta de posicionamento e na neutralidade, porque, muitas vezes, isso é encarado como conivência com retrocessos ou como uma espécie de traição a esse público que apoiou o artista em tantos outros momentos. Acaba sendo lido e interpretado como uma falta de coragem e motiva um desapontamento dos seguidores.

Na chamada economia da atenção, onde influência é dinheiro, esses riscos tornam o endosso de uma celebridade ainda mais caro aos candidatos, particularmente na tentativa de furar bolhas digitais.

— Artistas e influenciadores tem o chamado “capital midiático”, ou seja, alcance, visibilidade e engajamento de seu público. Ao se posicionar politicamente, a tentativa é converter parte disso em “capital político”, mas não é simples converter fãs em eleitores. Ao associar sua imagem a uma candidatura, o artista ou influencer pode afastar parte de sua base — avalia Luís Mauro Sá Martino, professor e pesquisador de comunicação e mídias digitais da Faculdade Cásper Líbero.

 

Fonte: Por Rafaela Gama, Luíza Marzullo e Letícia Pille