PT desiste de candidatura própria no RS após pressão de Lula

10 de abril de 2026 17

Pela primeira vez desde que foi fundado, o PT não terá um candidato próprio ao governo do Rio Grande do Sul. Sob pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ameaça de intervenção, o partido desistiu de liderar a chapa e agora vai apoiar a ex-deputada Juliana Brizola, do PDT.

O acordo foi fechado nesta quinta-feira, 9, após interferência direta de Lula porque, para aderir à sua campanha, o PDT exigiu como principal contrapartida o aval dos petistas ao nome de Juliana. Depois de muitos protestos e críticas ao enquadramento vindo do Palácio do Planalto, o ex-presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) Edegar Pretto (PT), abriu mão de sua candidatura.

A tendência é que Pretto seja vice na chapa encabeçada por Juliana, neta do ex-governador Leonel Brizola. Mas há um novo problema a administrar: o PSOL, que apoiava Pretto, discorda do acerto com o PDT e ameaça deixar a aliança.

Em resolução política aprovada na terça-feira, 7, o PT decidiu determinar que a tática política no Rio Grande do Sul seja construída em conjunto com o PDT e partidos aliados, sob a liderança de Juliana Brizola. A frente de oposição é composta por PDT, PT, PSB, PSOL, PCdoB, PV e Rede.

“Não há nada mais importante que a reeleição do presidente Lula”, diz um trecho do documento que passou pelo crivo da Executiva Nacional petista.

Dirceu e Pomar divergem sobre ‘intervenção’

A decisão foi criticada por Valter Pomar, dirigente da corrente Articulação de Esquerda e diretor da Fundação Perseu Abramo. Pomar divergiu publicamente do ex-ministro José Dirceu, que foi cassado pela Câmara em 2005 e vai novamente concorrer a deputado na eleição de outubro.

Pouco antes, Dirceu havia divulgado uma nota sustentando que o caso gaúcho não configurava “intervenção”. No texto, o ex-ministro citou exemplos de outros Estados onde o PT, em nome da aliança nacional, apoiará candidatos de outros partidos, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná.

“Grave é a desqualificação do debate político e as acusações indevidas, inclusiva contra a pré-candidata do PDT (Juliana Brizola), de violação da democracia partidária por parte daqueles que defendem a aplicação da política nacional ao Rio Grande do Sul”, escreveu Dirceu.

Pomar rebateu o ex-ministro. “Dirceu não acha que se trate de uma intervenção. Normal: em geral quem pratica uma violência não a reconhece como tal”, fustigou ele, ao citar a intervenção ocorrida no PT do Rio de Janeiro, em 1998, quando Dirceu era presidente do partido.

À época, o candidato escolhido pelo PT do Rio para disputar o governo fluminense era Vladimir Palmeira. Mas, para apoiar Lula à Presidência -e ter Leonel Brizola como vice da chapa -, o PDT exigiu que o PT tirasse Palmeira do páreo e lançasse Anthony Garotinho ao Palácio Guanabara.

Após dizer que iria até o fim e não voltaria atrás, Pretto procurou amenizar a crise, nesta quinta-feira, 9. “Vamos nos apresentar, a partir de agora, como uma frente política, e não individualmente”, destacou ele, depois de anunciar a desistência. “Somos uma frente política, e um palanque muito importante, e é isso o que continuaremos mobilizando”.

O PT governou o Rio Grande do Sul de 1999 a 2003, com Olívio Dutra, e de 2011 a 2015, com Tarso Genro. Além disso, administrou durante 16 anos consecutivos a Prefeitura de Porto Alegre. Nesta campanha, um dos argumentos para os petistas resistirem a apoiar Juliana Brizola foi o fato de o PDT integrar o governo de Eduardo Leite (PSD), classificado por eles como “neoliberal e de direita”. O partido entregou os cargos na equipe apenas recentemente.

Leite queria disputar a sucessão de Lula, mas decidiu ficar à frente do Piratini até o fim do mandato após ser preterido pelo comando do PSD, que resolveu lançar a candidatura do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado. Agora, Leite quer emplacar seu vice, Gabriel Souza (MDB), como candidato ao governo gaúcho.

Pesquisa de intenção de voto divulgada em 17 de março pelo instituto Real Time Big Data mostra o deputado Luciano Zucco (PL), aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, em primeiro lugar, com 31% das preferências. Juliana Brizola aparece em segundo, com 24%; Pretto, em terceiro, com 19%, e Gabriel Souza, em quarto, com 13%.