Para onde vamos?
Lula está preso mas isso não acaba com a incerteza política que o mundo enxerga no Brasil, nem desata os nós do impasse político mal percebido no turbilhão dos fatos. A prisão de Lula foi uma espécie de última bala da ofensiva conservadora que, em nome do combate à corrupção, deslegitimou o sistema político, derrubou uma presidente eleita e entronizou um governo tão nulo que nem se pronunciou sobre a prisão do ex-presidente. A campanha pela liberdade de Lula impedirá que qualquer candidatura ganhe músculos no curto prazo, e do cárcere, ele estará participando da montagem do jogo.
Com Lula preso e fora da disputa, as forças conservadoras concluem o enredo destinado a lhe garantir a reconquista do governo pelas urnas, depois de 13 anos de poder petista, mas continuam não dispondo e não têm mais onde buscar um candidato viável. Daí o temor de que sucumba à última tentação autoritária, de custo altíssimo, o adiamento da eleição.
O espantalho da extrema-direita, Jair Bolsonaro, como muita gente acredita, pode até perder alguns pontos com a remoção de seu antípoda mas sua gordura eleitoral não se esgotará com isso. Pelo contrário, pode ter sido aquecida pela ressurgência do antipetismo no episódio da prisão. O banho de povo, o controle da narrativa por Lula na liturgia de São Bernardo e a repercussão internacional negativa da prisão atiçaram o fogo dos “coxinhas”. A polarização está nas ruas.
Geraldo Alckmin deixou o governo de São Paulo, Meirelles deixou a Fazenda mas suas candidaturas não convencem. Por isso surgiram tantas alternativas no campo conservador, como Rodrigo Maia (DEM), Flavio Rocha (PRB), Álvaro Dias (Podemos) e a própria Marina Silva, que concluiu seu divórcio da esquerda apoiando a prisão de Lula. Tendem agora a se digladiar. Joaquim Barbosa filiou-se ao PSB pensando em ser candidato mas o partido ainda prefere destinar seus recursos à eleição de governadores e deputados.
Resta Ciro Gomes, em seu esforço para se viabilizar conquistando apoios na centro-esquerda, de órfãos do lulismo, e na centro-direita que torce o nariz para os candidatos que estão postos. Ele tem programa, tem ideias mas queimou pontes novamente ao não hipotecar solidariedade a Lula. Estava fora do país mas não precisava ter dito que não é “puxadinho do PT” na hora mais dramática.
Por outro lado, a prisão de Lula energizou, aproximou e tirou da defensiva o PT e seus aliados, que já vinham neste movimento desde o assassinato da vereadora Marielle e dos tiros contra os ônibus da caravana pelo Sul. Mesmo que se frustre a utopia de uma frente eleitoral com o PSOL e o PC do B no primeiro turno, e por mais que o PT bata na tecla de que Lula é o candidato, dentro de algum tempo este problema será enfrentado. Candidato o PT terá.
É cedo para saber como o eleitorado processará a prisão de Lula mas ela vai semear uma dúvida que pode ser respondida já nas próximas pesquisas: se a lei é para todos, mantra dos que justificaram a prisão, porque só ele foi preso, entre tantos políticos acusados de corrupção nos outros partidos? Ontem o delegado da Polícia Federal Milton Fornazari Junior escreveu numa rede social que “agora é hora de serem investigados, processados e presos os outros líderes de viés ideológico diverso, que se beneficiaram dos mesmos esquemas ilícitos que sempre existiram no Brasil (Temer, Alckmin, Aécio etc.). Foi repreendido. A Lava Jato não fará nada disso, embora nem tenha a desculpa do foro especial no caso de Alckmin, que neste momento não o tem.
Enquanto isso o governo marcha para o final, com Temer empossando hoje um ministério de técnicos, evitando o assunto que ainda prende as atenções do país, e a economia volta a capengar. Os que olham o Brasil de fora têm todos os motivos para dizer que o país caminha para o desconhecido.
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A POLITICA COMO ELA é (POR : TEREZA CRUVINEL)
Tereza Cruvinel atua no jornalismo político desde 1980, com passagem por diferentes veículos. Entre 1986 e 2007, assinou a coluna “Panorama Político”, no Jornal O Globo, e foi comentarista da Globonews. Implantou a Empresa Brasil de Comunicação - EBC - e seu principal canal público, a TV Brasil, presidindo-a no período de 2007 a 2011. Encerrou o mandato e retornou ao colunismo político no Correio Braziliense (2012-2014). Atualmente, é comentarista da RedeTV e agora colunista associada ao Brasil 247; E colaboradora do site www.quenoticias.com.br