Operação Dominó: a pedra no para-brisa e o segredo que durou 3 anos
Antes de as algemas, havia ameaças, fitas secretas e um governador acuado. Esta é a história que ficou fora dos jornais
A sala e o organograma
Era uma manhã comum de 2003 quando o telefone tocou. Do outro lado, um agente da Polícia Federal — alguém de confiança, de quem não se diz o nome. A mensagem era direta: o delegado Mauro Spósito, responsável por uma força-tarefa anticrimes na Amazônia, queria me ver.
Cheguei à Superintendência da PF por volta das 9 horas. A força-tarefa ocupava uma sala anexa ao prédio principal — discreta, quase invisível para quem passasse pelo corredor. Mas o que havia dentro daquela sala era impossível de ignorar: um quadro que tomava boa parte da parede, coberto por um organograma. Fios, nomes, setas. O mapa de uma organização criminosa instalada no coração das instituições de Rondônia.
Eu tinha chegado com uma pasta. Documentos que o Portal364.com havia reunido ao longo de meses de apuração — denúncias que citávamos em reportagens, mas que não havíamos publicado na íntegra por falta de confirmação. Spósito abriu, leu. Levantou os olhos do papel e disse, com a contenção característica de quem carrega segredos pesados:
"Em breve ocorrerá uma operação que vai abalar as estruturas deste estado."
Ele não estava errado. Mas, naquele momento, a investigação estava encalhada.
Delegado Mauro Spósito
A extorsão institucionalizada
O que Spósito e sua equipe investigavam até então era o possível envolvimento de autoridades com o narcotráfico e o contrabando de diamantes da Reserva Roosevelt. Trilha importante — mas que não levava, naquele momento, a provas suficientes para agir. O problema maior estava diante dos olhos, nas planilhas financeiras que ninguém havia ligado aos pontos.
Ao examinar a documentação do Portal364, Spósito identificou um padrão. Quase todos os deputados estaduais daquela legislatura possuíam uma fundação assistencialista registrada em nome próprio ou de familiares. E cada uma dessas fundações recebia, em média, R$ 50 mil por mês do governo do estado — à época comandado por José Bianco. Em valores atualizados, mais de R$ 150 mil mensais por parlamentar.
A lógica era simples e brutal: os deputados garantiam a "governabilidade" — aprovavam projetos, bloqueavam CPIs, engavetavam fiscalizações — e recebiam a mesada pelas fundações, dando aparência de legalidade ao que era, na essência, propina institucionalizada.
A Polícia Federal apurou que 23 deputados de Rondônia embolsaram R$ 14,96 milhões do Tesouro em menos de um ano usando uma folha de pagamento paralela que abrigou 567 servidores fantasmas. Mas esse número, revelado em 2006, era apenas a ponta visível do iceberg. Por baixo havia anos de um sistema que funcionava como uma engrenagem perfeita — até que Ivo Cassol chegou ao governo e recusou, simplesmente, continuar pagando.
O governador acuado
Cassol assumiu em 2003 com a disposição de romper com o esquema. A resposta do legislativo foi imediata: sem a mesada, sem governabilidade. A Assembleia travou. Projetos empacaram. E, nos bastidores, começou a se desenhar um processo de impeachment.
Acuado, o governador fez o que ninguém esperava. Mandou instalar uma câmera acoplada a uma maleta executiva e passou a gravar, um a um, os encontros que aconteciam na residência oficial. Deputados entravam pedindo contratos, benesses, cargos. Saíam sem saber que tinham sido filmados.
Por um breve momento, Cassol considerou repassar as gravações ao Portal364. Reunimo-nos algumas vezes para discutir a viabilidade. A conclusão foi que não seria suficiente — as imagens sozinhas, publicadas por um veículo regional, poderiam ser desacreditadas, contestadas judicialmente ou simplesmente ignoradas pela opinião pública nacional. O escândalo precisava de uma plataforma maior. Precisava chegar ao Brasil inteiro ao mesmo tempo.
A pedra e a ameaça
Enquanto isso, o Portal364 continuava publicando. E quanto mais publicava, mais incomodava.
O escritório ficava na esquina da Avenida Pinheiro Machado com a Rogério Weber, em Porto Velho — onde hoje funciona um escritório de advocacia. Numa tarde de 2003, ao sair do trabalho, me deparei com o que havia sobrado do meu para-brisa: um pedaço de meio-fio de calçada tinha sido atirado contra o vidro, no lado do passageiro. Na pedra, escrita com tinta ou carvão, uma mensagem curta e inequívoca:
"A próxima é na sua cabeça."
Notifiquei o então secretário de segurança pública, Paulo Moraes — falecido em outubro de 2015 —, que designou uma escolta policial para mim e para minha família. Foram três semanas trabalhando de casa, saindo apenas quando necessário. A rotina havia se tornado um cálculo permanente de risco.
A ameaça não silenciou o Portal364. Mas deixou claro o tamanho do que estava sendo mexido.
Em uma das minhas saídas, fui ao escritório para buscar algumas coisas; ao chegar no prédio, por volta das 7 da manhã, uma das portas metálicas da galeria onde funcionava o escritório (ocupávamos duas salas, a terceira era um consultório médico que estava sem funcionar) havia sido forçada. Estava com a base retorcida, mas não chegou a ser arrombada, talvez por conta do barulho. Entrei pela outra porta, as salas não haviam sido invadidas. Mas era mais um recado.
Dias depois, um emissário me procurou. O proprietário da agência de publicidade que atendia a Assembleia Legislativa queria falar comigo pessoalmente. Tratava-se de Haroldo Augusto Filho, o 'Haroldinho', filho do deputado Haroldo Santos. O escritório deles funcionava na Avenida Carlos Gomes, em frente a praça das Três Caixas D'àgua. Lá, ele me fez uma proposta, eu poderia dizer um valor que eles me pagariam, em troca do Portal364.com não publicar mais nada sobre os deputados, 'para não falar nem mal nem bem, apenas esquecer que a Assembleia existia'. Agradeci a oferta, afirmei que não queria, e que seguiria publicando 'o que caísse em minhas mãos'. A resposta foi, 'não posso garantir que ninguém fará nada, porque você está mexendo com gente perigosa, então você está por sua conta e risco'. Liguei para Spósito, contei o ocorrido, e ele me disse para ter cuidado e na ocasião chegou a me oferecer a entrada no programa de proteção a testemunhas, o que eu prontamente recusei, afinal, não iria deixar minha vida e minha história por conta de ameaças e até então, as autoridades tinham conhecimento de todos os fatos.
A operação em números
O contato que mudou tudo
Foi nesse período que a Abraji — Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo — dava seus primeiros passos. Participei do primeiro evento da entidade, em Porto Alegre, e fiz um contato que se revelaria decisivo: a equipe de produção do programa Fantástico, da Rede Globo. Entre eles, o repórter Eduardo Faustini, especializado em reportagens secretas.
Uma reunião foi agendada entre Faustini e o governador Cassol em São Paulo. As fitas foram entregues. O que aconteceu depois virou história — mas essa história merece ser contada em detalhes, no próximo episódio.
A censura que não funcionou
Na semana que antecedeu o dia 15 de maio de 2005, a Rede Globo começou a divulgar chamadas do Fantástico com imagens de deputados de Rondônia. O estado inteiro sabia que algo grande estava para acontecer no domingo à noite.
Horas antes da exibição, chegou a resposta das instituições que deveriam, em teoria, combater os crimes mostrados nas fitas. O desembargador Gabriel Marques de Carvalho, do Tribunal de Justiça de Rondônia — a mesma corte depois varrida pela Operação Dominó —, concedeu uma liminar proibindo a exibição. Em sua decisão, escreveu:
"A propalada divulgação de fita com indícios de crime contra os deputados deve ter por caminho o Ministério Público e não ataque direto pela imprensa falada ou escrita e televisada, sem a possibilidade de defesa, com risco de violação à vida privada, à honra e à imagem das pessoas. Por isso defiro a suspensão da divulgação. Multa de R$ 200.000,00 pelo descumprimento."
A reportagem não foi ao ar em Rondônia naquela noite. Mas foi exibida no restante do Brasil.
No Portal364, captamos o sinal via antena parabólica e publicamos o conteúdo imediatamente. A liminar se restringia à Rede Globo — não a um site de Porto Velho. Era uma brecha legal, e a usamos sem hesitar.
Paulo Moraes era secretário de segurança pública
Porto Velho nas ruas
A reação popular foi imediata e furiosa. Dezenas de manifestantes se aglomeraram em frente ao prédio da Rede Amazônica, responsabilizando, equivocadamente, a emissora local pela não exibição — inconformada com a censura.
No dia seguinte, segunda-feira, a proibição foi revogada pelo juiz convocado Osni Claro, diante do pedido de desistência dos próprios deputados ao agravo de instrumento que havia pedido a censura. Sem a liminar, o material foi ao ar na íntegra no Jornal Nacional — agora para o Brasil inteiro, em horário nobre, com ainda mais impacto do que teria tido no Fantástico.
Nos dias que seguiram, aconteceram diversas manifestações em frente à Assembleia, a CPI foi desarticulada e os deputados ficaram desmoralizados.
O deputado Amarildo de Almeida — um dos que havia assinado o pedido de censura — chegou a sair do prédio da Assembleia escondido dentro do próprio carro para evitar ser apedrejado. Outros simplesmente desapareceram do mapa por dias.
"O gozado é que, agora que a onça está morta, todo mundo quer tirar fotografia ao lado dela."
A frase era de Cassol, referindo-se à bancada federal do estado — que durante anos ignorou seus pedidos de socorro e, após a divulgação das fitas, correu para se distanciar dos deputados detonados pelo Jornal Nacional.
O que o Judiciário revelou sobre si mesmo
A tentativa de censura não foi apenas um ato desesperado de políticos acuados. Foi, sem que ninguém percebesse na hora, uma prova cabal do alcance do esquema. O STF apontou que a situação em Rondônia evidenciava uma absoluta anomalia institucional, jurídica e ética — praticamente a totalidade dos membros da Assembleia Legislativa estava indiciada ou denunciada por crimes relacionados à organização criminosa, que se ramificava por vários órgãos estatais.
Um juiz que manda calar a imprensa para proteger deputados filmados pedindo propina não é um magistrado zeloso pela honra alheia. É parte do sistema.
A Operação Dominó foi iniciada a partir de provas colhidas em inquéritos policiais, mediante interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça estadual e posteriormente pelo STJ, além de provas documentais obtidas em buscas e apreensões e pelo depoimento de vários envolvidos. As investigações foram desencadeadas por determinação do ministro da Justiça, mediante solicitação do governador Ivo Cassol.
O pedido de intervenção federal que Cassol fazia desde 2003 — e que ninguém atendia — havia, finalmente, encontrado o caminho certo. As fitas tinham feito o que três anos de denúncias jornalísticas não conseguiram sozinhas: colocar Rondônia no centro da atenção nacional e tirar a Polícia Federal do ponto morto.
A engrenagem estava em movimento. E em 4 de agosto de 2006, ela chegaria com força total.
O que estava em jogo
O STF apontou que a situação em Rondônia evidenciava uma absoluta anomalia institucional, jurídica e ética — praticamente a totalidade dos membros da Assembleia Legislativa estava indiciada ou denunciada por crimes relacionados à organização criminosa, que se ramificava por vários órgãos estatais.
As investigações da Operação Dominó foram desencadeadas por determinação do ministro da Justiça, mediante solicitação do próprio governador do estado, Ivo Cassol. Mas o que os documentos oficiais não registram é o que aconteceu antes disso: os anos em que jornalistas, delegados e um governador isolado construíram, tijolo por tijolo, o caso que o país finalmente viu em agosto de 2006.
Rondônia estava, literalmente, à venda. E quem tentasse mostrar isso corria o risco de ter o para-brisa destruído — ou pior.
O que vem no próximo episódio
Na manhã de uma sexta-feira de agosto de 2006, mais de 300 agentes da Polícia Federal espalharam-se simultaneamente pelas ruas de Porto Velho. Entre os presos estavam o presidente do Tribunal de Justiça do estado, desembargador Sebastião Teixeira Chaves, e o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Carlão de Oliveira, além de deputados estaduais, inclusive integrantes da Mesa Diretora, um procurador e um juiz de Direito.
Era a Operação Dominó. E ela ainda estava longe de terminar.
No próximo episódio: as prisões, o debate histórico no STF sobre o uso de algemas, a manchete do Estadão — "Rondônia: Um Estado Atrás das Grades" — e o longo caminho até as condenações que viriam uma década depois.
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PAINEL POLITICO (ALAN ALEX)
Alan Alex Benvindo de Carvalho, é jornalista brasileiro, atuou profissionalmente na Rádio Clube Cidade FM, Rede Rondovisão, Rede Record, TV Allamanda e SBT. Trabalhou como assessor de imprensa na SEDUC/RO foi reporte do Diário da Amazônia e Folha de Rondônia é atual editor do site www.painelpolitico.com. É escritor e roteirista de Programas de Rádio e Televisão. .

