*O voto por ranking: quando a pesquisa eleitoral deixa de medir a preferência do eleitor e passa a moldá-la*

1 de outubro de 2026 21

A cada nova rodada, o eleitor recebe a fotografia de quem lidera, mas não a de quem propõe o quê. Nessa troca silenciosa, o instrumento criado para observar a escolha coletiva pode acabar participando de sua formação.

A uma semana do primeiro turno, a cobertura eleitoral brasileira se organiza em torno de uma unidade de informação: a pesquisa de intenção de voto. Ela é a premissa aceita por mercado, imprensa e campanhas. Sem ela, não há manchete, precificação de risco nem estratégia de aliança. O pressuposto é que medir a preferência é neutro e que informar quem lidera equivale a informar o eleitor. É essa equivalência que vale examinar.

O tema é simples de enunciar e difícil de responder. O eleitor decide seu voto pelo currículo e pelas propostas do candidato, ou pela posição que ele ocupa nas pesquisas? A literatura de ciência política reconhece dois mecanismos opostos: o efeito bandwagon, em que o eleitor migra para o favorito, e o underdog, em que simpatiza com o azarão. A evidência empírica é mista e depende do contexto. Há, porém, um terceiro mecanismo, menos ambíguo: o voto estratégico. Ao concluir que seu candidato "não tem chances", o eleitor troca a preferência por uma escolha entre os competitivos. Isso é racional no nível individual e pode empobrecer o debate no coletivo.

*E ai?: a informação que sobra e a que falta*

O problema começa na oferta. As pesquisas divulgadas são, em boa parte, encomendadas por entidades de classe, instituições do setor financeiro e grupos de mídia. Cada contratante tem interesses legítimos, e nenhum deles é o de esclarecer o eleitor sobre plataformas de governo. A legislação exige transparência: a Lei nº 9.504/1997 determina o registro prévio no TSE, com informação sobre contratante, metodologia, amostra, período de coleta e margem de erro. Mas o registro não equivale a inteligibilidade. O eleitor vê o percentual e raramente o método.

A margem de erro, em particular, é mal compreendida. Uma amostra de 2 mil entrevistas, com 95% de confiança, traz margem de cerca de dois pontos percentuais para mais ou menos. Isso vale para cada candidato individualmente. A incerteza sobre a diferença entre dois candidatos é aproximadamente o dobro, o que amplia a zona de "empate técnico" além do que a leitura corrente sugere. Além disso, 95% de confiança significa que uma em cada vinte pesquisas, mesmo bem feitas, cai fora do intervalo. Críticos acrescentam que a margem, estritamente, só se aplica a amostras probabilísticas, e boa parte dos levantamentos usa amostragem por cotas. Como o intervalo é largo, resultados muito distintos podem ser declarados compatíveis com o desfecho, e o instituto raramente "erra" pelo próprio critério. Foi o que se discutiu em 2022, quando levantamentos subestimaram o desempenho de Bolsonaro no primeiro turno em vários pontos, e os institutos sustentaram que se tratava de diferença explicável por abstenção, volatilidade de última hora e fatores de amostragem.

O custo é de ineficiência alocativa no mercado de ideias. Se o voto se realoca pelo ranking, e não pelo mérito, candidatos com propostas de nicho perdem visibilidade e recursos antes de serem avaliados. Eleitores gastam atenção com a corrida e não com o conteúdo. Ganham as candidaturas já consolidadas, que capitalizam a percepção de viabilidade, e os contratantes que dominam a agenda noticiosa. Perdem o candidato de menor exposição e o eleitor que, sem saber, vota em função da pergunta que a pesquisa faz, e não da que a democracia deveria fazer.

*O embate: informação pública ou indução de voto*

Os institutos e seus defensores sustentam que a pesquisa é um retrato de momento, não uma previsão. Argumentam que ela dá ao eleitor um dado legítimo para o voto estratégico, que financia e disciplina campanhas com informação de qualidade e que restringir sua divulgação equivaleria a censura prévia, além de empurrar os números para circuitos privados, acessíveis apenas a quem pode pagar. O STF, ao longo dos anos, tem tratado a liberdade de informação como valor central e reagido com cautela a limitações amplas.

Do outro lado, juristas, parte da academia e agentes do sistema de Justiça Eleitoral apontam que a pesquisa esclarece a preferência, não a plataforma, e que a divulgação intensiva pode desestimular o voto em candidatos mal posicionados. Propõem mais transparência: divulgação obrigatória de questionário e microdados, linguagem acessível sobre incerteza, punição rigorosa a levantamentos fraudulentos, previstos em lei como crime, e eventuais limites de divulgação em período próximo à votação, como já ocorre em diversos países. Os primeiros respondem que o problema está na leitura, não na medição. Os segundos, que a leitura é induzida pela forma de divulgação. Ambas as posições descrevem partes verdadeiras do mesmo fenômeno.

*Conclusão*

O debate tende a se deslocar da pergunta "pesquisas devem existir?" para "como devem ser comunicadas?". A trajetória provável passa por exigências maiores de auditabilidade metodológica, pela alfabetização estatística na cobertura jornalística e por pressão para separar, editorialmente, a corrida de cavalos da análise de propostas. Se o status quo for mantido, o risco é de longo prazo: uma cultura eleitoral em que a viabilidade percebida pesa mais que a proposta avaliada. A pesquisa mede bem o que o eleitor pensa hoje. Cabe ao sistema de informação garantir que ela não passe a decidir o que ele pensará amanhã.

Fonte: OER - Observatório da Economia Real.*
JABURU DIRETO AO ASSUNTO

Chegou 2016. E aí rei da cocada? E aí autoridades? 1 – Ano de eleição. Não fez, não fez! Político promessa é igual produto ruim. Experimenta-se somente uma vez. 2 – E aí a propaganda? Prometeu. Mentiu. Não fez. Não cumpriu. Enganou. Difícil apagar da mente. Não adianta gastar a grana do povo. Tirar foto com fotoshop. Vai ter que tirar do ar. Os da lei mandaram! 3 – E tem mais! Aguenta a oposição mostrando e reprisando as notícias das promessas e das maracutaias. 4 – E as maracutaias “novas”? Tem muita gente calada. Por conveniência. Muda nunca! Amordaçada muito menos! E roubo não se esconde e muito menos se esquece. Os caminhos ficaram marcados e o pior, documentados. 5 – Tá tudo scaneado e filmado. E haja sacanagem! Como diz o caipira. “Na roça tem hora pra tudo!”. “Pra cume, pra bebe, pra trabaia, pra caga e pra fala mar dosoutros”. 6 – E a elite está preocupada. A tropa já está em campo avaliando suas empatias. 7 – Cidade e mente. Ambas pequenas. É assim! Querem vencer pela empatia e pelo poder. Tudo no interesse próprio. 8 – E a elite mostrando --- o ruim que “gostam” e o bom que não os “serve”. O município se desenvolve, mas as cabeças dominantes são permanentemente contaminadas, agora pelo Zika Vírus. “E a Cidade faz a sua metamorfose atropelada e empurrada pela população, mas continua o berço da elite dos homens de cabeça pequena”. --- Praga que resiste ao tempo. Participe. 9 – Esta coluna é escrita com a participação de várias pessoas e Você poderá participar e contribuir enviando e-mail para: jaburu.ro@gmail.com 10 – Envie sua observação, crítica, matéria, sugestão, pauta, direito de resposta, etc, em até quatro linhas.