O diabo nos detalhes
Mais que o avançado da hora, pode ter sido a precaução que levou o STF a adiar para hoje a conclusão do julgamento sobre a limitação do foro especial para deputados e senadores. Embora o relator, ministro Roberto Barroso, já tivesse obtido antes a maioria de votos a favor de sua proposta – que restringe o foro privilegiado do Supremo a crimes cometidos no exercício do mandato e a ele relacionados - restrições importantes foram levantadas ontem pelos três ministros que ainda não haviam votado, e também pelo ministro Alexandre de Morais. Se elas não forem equacionadas na resolução final de hoje, o golpe na impunidade pode gerar repercussões que exigirão um retorno da corte ao assunto.
Dias Toffoli votou a favor da solução proposta, completando os nove votos, mas insistiu muito na importância de fixarem a diplomação dos parlamentares como momento a partir do qual eles passam a responder ao STF por crimes cometidos durante o mandato e que tenham relação com seu exercício. Considerou muito subjetiva a definição do que seja um crime relacionado ao mandato, o que pode gerar nulidades em processos. E apontou para algo que, quem conhece o Brasil, sabe que é real e vem do coronelismo: o controle das elites políticas locais sobre juízes de primeira instância, em contraste com a maior independência das cortes superiores. Por esta lógica, a emenda pode sair pior que o soneto.
Alexandre de Morais já havia votado antes mas voltou a defender o direito dos parlamentares ao foro do STF também no caso de crimes comuns, e não apenas de conexos com o mandato. Já Lewandowski, e Gilmar Mendes, que só votará hoje, apontaram o que parece ser a repercussão mais grave da aprovação, sem ajustes, do voto de Barroso. Faltará simetria e equilíbrio a uma decisão que restringe apenas o privilégio de parlamentares, contra os quais rosnam as ruas hoje, mantendo-o para outras autoridades, como ministros, governadores, procuradores, promotores e os membros do alto Judiciário.
Se for aprovada uma restrição geral, ponderou Gilmar em aparte, até os comandantes militares serão julgados por juízes de primeira instância: “Não vai dar certo. Imagine um general sofrendo uma condução coercitiva”. Mas se prevalecer a restrição apenas para parlamentares, amanhã o Congresso responderá aprovando aquele projeto que acaba com o foro para todos, inclusive para o presidente da República.
Com o voto de Barroso já aprovado, apesar destas restrições, será complicado incorporar algumas delas à resolução final. Mas deixando a conclusão para hoje, o Supremo ganhou tempo.
E ainda que prevaleça na íntegra a proposta do relator, outras repercussões importantes ainda terão que ser respondidas. Como, por exemplo, a questão da perda do mandato pelos deputados e senadores que venham a ser condenados, e o cumprimento da pena a partir da segunda instância, conforme estabelecido hoje para todos.
TEMER NO BARRANCO
A Câmara tentou em vão romper o imobilismo que já dura algumas semanas mas não conseguiu aprovar uma das muitas medidas provisórias acumuladas, fora o empacado cadastro positivo. A debilidade política de Temer e uma obstinada obstrução da oposição vêm travando a pauta mas parece combinado que isso não tem mais importância. É como se faltasse um mês, e não oito, para o governo acabar.
ADVOGADOS CONTRA MORO
Mais de 400 advogados assinaram manifesto de apoio aos colegas Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, e Diogo Malan, acusados pelo juiz Sergio Moro de terem omitido informações ao pedirem ao TRF-1 a cassação da extradição de Raul Schmidt, algo da Lava Jato preso em Portugal. Criminalização da advocacia, gritou a classe. Moro se rebelou mas o STJ já puxou o caso para sua alçada. O juiz de Curitiba já tem outra preocupação. O ministro Toffoli será relator, no STF, da petição da defesa de Lula, para que saia de suas mãos o processo sobre o sítio de Atibaia.
MAIS LIDAS
Cármen, Kassio e Toffoli serão "fiéis da balança" em sessão sobre Moraes
Os nomes do PT que correm por fora para suceder Lula
Nome de operação da PF contra Lulinha incomoda entorno de Lula
A POLITICA COMO ELA é (POR : TEREZA CRUVINEL)
Tereza Cruvinel atua no jornalismo político desde 1980, com passagem por diferentes veículos. Entre 1986 e 2007, assinou a coluna “Panorama Político”, no Jornal O Globo, e foi comentarista da Globonews. Implantou a Empresa Brasil de Comunicação - EBC - e seu principal canal público, a TV Brasil, presidindo-a no período de 2007 a 2011. Encerrou o mandato e retornou ao colunismo político no Correio Braziliense (2012-2014). Atualmente, é comentarista da RedeTV e agora colunista associada ao Brasil 247; E colaboradora do site www.quenoticias.com.br