Milícia e TCP são investigados por obrigar comerciantes de panificação a comprar farinha com preços até 90% acima dos valores de mercado

4 de junho de 2026 23

A Polícia Civil encontrou indícios de que a milícia e a facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP) estão usando empresas ligadas aos dois grupos criminosos para obrigar pequenos e médios comerciantes a adquirirem produtos de panificação, incluindo farinha de trigo, gordura vegetal e açúcar, por preços que variam de 70% a 90% acima do valor de mercado. O monopólio imposto pelo crime atinge estabelecimentos de cinco bairros localizados nas zonas Oeste e Norte do Rio. Quem se recusa a comprar os gêneros alimentícios dos fornecedores indicados pelos bandidos é ameaçado por homens armados e pode ter o comércio fechado, ou até ser assassinado.

A polícia estima que proprietários de mais de 100 estabelecimentos foram vítimas dos criminosos. Os investigadores apuram se a morte do comerciante Rafael Oliveira Braga, de 43 anos, executado a tiros em uma comunidade do bairro Paciência, na Zona Oeste, em março de 2025, ocorreu por ele ter se recusado a comprar os produtos oferecidos por fornecedores ligados a um grupo criminoso. Ele foi assassinado por dois homens em uma motocicleta quando chegava a uma padaria. Segundo a delegada Luciana Fonseca, da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco/IE), há ainda notícias da prática criminosa em pontos de Campo Grande, Santíssimo e Santa Cruz, na Zona Oeste, e em alguns locais de Madureira, na Zona Norte. Neste último bairro, os milicianos atuariam com o aval de traficantes do Terceiro Comando Puro. Em troca da exploração da área controlada pela facção, os paramilitares ajudariam o TCP na disputa de territórios com o Comando Vermelho.

Policial da Draco e sacos de farinha — Foto: Reprodução

Policial da Draco e sacos de farinha — Foto: Reprodução

— A investigação começou há quatro meses, após denúncias de que comerciantes estavam sendo obrigados a adquirir produtos de fornecedores indicados pela milícia. Identificamos cinco empresas. Algumas são regulares e foram cooptadas pelos bandidos. Outras foram criadas recentemente para essa finalidade — disse a delegada.

Nesta quarta-feira, a polícia deflagrou uma operação para cumprir 14 mandados de busca e apreensão em endereços localizados nas zonas Oeste e Norte da capital. Em um deles, os agentes da Draco encontraram farinha de trigo vencida misturada a outra farinha ainda dentro do prazo de validade. O produto estava sendo embalado para revenda.

— Encontramos farinha vencida misturada a outra farinha e um maquinário que serviria para embalar o produto. Duas pessoas foram presas por armazenamento de material vencido — disse a delegada.

Segundo a polícia, o objetivo da operação foi apreender documentos, registros contábeis, aparelhos eletrônicos e outros elementos para aprofundar o mapeamento da estrutura criminosa. As diligências prosseguem para identificar todos os envolvidos, dimensionar a movimentação financeira do esquema e apurar possíveis conexões com outros crimes praticados pela organização.

Não é a primeira vez que bandidos exploram o monopólio da venda de farinha para a fabricação de pães. Em março deste ano, a Prefeitura de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, denunciou que traficantes ligados a uma facção criminosa estariam obrigando comerciantes de algumas padarias de dois bairros do município a comprar farinha de trigo fornecida por eles. O valor cobrado pelo produto, usado na fabricação dos pães, era quase o dobro do preço de mercado. A medida, que, segundo o município, atingiu alguns estabelecimentos dos bairros São José e Parque Suécia, próximos à divisa com o município de Duque de Caxias, elevou o preço do pão francês de R$ 0,50 para R$ 0,80.

Na ocasião, a 54ª DP (Belford Roxo) abriu uma investigação para apurar o caso. De acordo com um dos relatos, os estabelecimentos eram obrigados a comprar sacos de farinha de 25 quilos por R$ 100. Em empresas legalizadas, o produto podia ser adquirido por valores que variavam entre R$ 60 e R$ 70. Dias após as denúncias, a prefeitura revelou que o preço do pão francês voltou ao normal após a polícia acabar com o monopólio imposto pelo tráfico.

Fonte: POR EXTRA