Mensagens mostram atuação de ACM Neto e Rueda para levar Master a fundos de previdência

16 de outubro de 2026 22

247 – Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) revelam a atuação de Antônio Rueda, presidente do União Brasil, e ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e dirigente da legenda, em articulações que favoreceram o acesso do Banco Master a institutos de previdência estaduais. Os diálogos mostram contatos com executivos da instituição financeira, negociações para captar centenas de milhões de reais e referências à influência política dos dois dirigentes em diferentes estados. As informações foram divulgadas pelo UOL, nesta sexta-feira (16).

Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, afirmou em uma proposta de delação premiada que Rueda e ACM Neto teriam atuado para viabilizar aplicações de recursos previdenciários no banco em troca de comissões equivalentes a 10% dos valores captados. A proposta de colaboração foi rejeitada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Documentos citados pela reportagem apontam que o Master transferiu R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia ligados a Rueda e outros R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto, totalizando R$ 11,8 milhões.

As conversas analisadas pelos investigadores indicam que os dois dirigentes eram considerados importantes para abrir canais de negociação com fundos de aposentadoria administrados por governos estaduais. A partir desse material, a PF solicitou mandados de busca e apreensão em endereços relacionados aos políticos, mas as medidas não chegaram a ser autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

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Apesar das referências a pagamentos de comissões a intermediários, as mensagens divulgadas não comprovam o repasse direto de comissões de 10% a Rueda ou ACM Neto. Ambos negam irregularidades e afirmam que os valores recebidos decorreram de serviços profissionais efetivamente prestados.

Mensagens apontam articulação para captar recursos previdenciários

Os primeiros contatos identificados entre Rueda e Vorcaro ocorreram em novembro de 2023. No dia 12 daquele mês, Fernando Mascarenhas, então diretor comercial do Master, informou ao banqueiro que havia recebido uma ligação do dirigente partidário.

“Rueda me ligou aqui, vai tá no banco amanhã? Boas notícias”, escreveu Mascarenhas, em mensagem originalmente registrada com a expressão final em inglês.

Vorcaro marcou uma reunião com Rueda para o dia seguinte. Pouco depois, Mascarenhas apresentou um roteiro de viagens a estados onde o banco pretendia ampliar a captação de recursos de institutos previdenciários.

 

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“Aquele nosso amigo marcou de irmos segunda final da tarde em Porto Alegre e terça em Rondônia e Amazonas! Posso confirmar?”, perguntou o executivo.

A viagem foi realizada em um avião particular de Vorcaro. Entre os passageiros estavam Mascarenhas, Rueda e dois intermediários identificados como Ricardo e Raphael. O roteiro incluía compromissos em Rondônia e Manaus.

Em 21 de novembro, Mascarenhas demonstrou entusiasmo com as perspectivas comerciais abertas pela articulação.

“Irmão, o negócio vai ficar gigante, nosso amigo até final do ano resolve 1,2 b”, escreveu.

Vorcaro respondeu: “Foguete”.

A referência a “1,2 b” indicava uma expectativa de captação de R$ 1,2 bilhão, embora as mensagens não demonstrem que esse montante tenha sido efetivamente transferido ao banco.

Amapá: aprovação de recursos e pedido para apagar mensagens

Uma das operações mais detalhadas nas conversas envolve a Amapá Previdência, responsável pela administração de recursos previdenciários de servidores públicos do estado.

Em abril de 2024, Mascarenhas comunicou a Vorcaro o avanço das negociações.

“Amapá, confirmado 400”, escreveu, em referência a uma captação de R$ 400 milhões.

“Quero ver nosso amigo apertar o enter”, respondeu o banqueiro.

A aprovação da operação ocorreu em 12 de julho de 2024, mesmo dia em que uma reportagem revelou problemas envolvendo a Caixa Asset e títulos emitidos pelo Banco Master.

Diante da repercussão, o tesoureiro da instituição, Alberto Felix, informou a Vorcaro que a transferência não seria realizada naquele momento “por causa da notícia da CEF”.

Felix também mencionou a participação de Rueda na condução das operações.

“A reunião lá do Amapá está acontecendo. Mas o Rueda que disse que ia segurar as operações”, escreveu.

Às 11h45 daquele dia, depois de apagar dez mensagens consecutivas da conversa, Rueda enviou uma orientação a Vorcaro: “Apaga essas mensagens”.

Cerca de uma hora depois, Mascarenhas comunicou uma nova aprovação.

“Aprovado 200 M agora no Amapá. Nesse minuto”, informou.

Ainda em 12 de julho, o diretor comercial encaminhou uma relação das principais negociações em andamento.

“400 Amapá, 350 RJ, 250 Amazonas, 160 Campos dos Goytacazes, 500 Maricá, 100 BH, 200 Alagoas”, escreveu.

Os números indicavam negociações que, somadas, alcançavam R$ 1,96 bilhão. A relação, entretanto, não significa que todos esses recursos tenham sido efetivamente aplicados no Master.

Comissões milionárias aparecem nas conversas

As mensagens também detalham pagamentos a intermediários envolvidos na operação do Amapá.

Em julho de 2024, Alberto Felix perguntou sobre uma comissão relacionada à consultoria de Ricardo e Raphael.

“Deu 8,9 mm. Já pediram para pagar”, escreveu o tesoureiro, utilizando a abreviação para milhões.

No dia seguinte, Vorcaro autorizou a emissão de uma nota no valor de R$ 8 milhões.

Em 1º de agosto, a tesouraria registrou outro pagamento: “Pagamos 11 mm contas a pagar, comissão Amapá”.

Naquele momento, a Amapá Previdência já havia transferido R$ 300 milhões ao Banco Master.

Segundo o UOL, a consultoria mencionada nas mensagens é atribuída a Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, identificado pela PF como lobista de Vorcaro em operações relacionadas ao Rioprevidência.

Os diálogos indicam que a consultoria de Ricardo Gordo trabalhava com uma comissão de 10% sobre operações realizadas com o Master.

O percentual coincide com aquele mencionado por Vorcaro em sua proposta de colaboração premiada ao descrever um suposto acordo com Rueda e ACM Neto. Entretanto, o material divulgado não apresenta comprovação de pagamentos dessa comissão diretamente aos dois políticos.

Influência de Rueda também é mencionada no Amazonas e no Rio

Outras conversas mostram que executivos e intermediários do Banco Master associavam Rueda à possibilidade de obter recursos de institutos previdenciários em diferentes regiões.

Em junho de 2024, Mascarenhas informou a Vorcaro sobre uma operação envolvendo a previdência estadual do Amazonas.

“Amazonprev 50 M líquida amanhã”, escreveu, em aparente referência a uma aplicação de R$ 50 milhões.

Em julho de 2025, o lobista Julio Cezar Avelino, que buscava investimentos de fundos previdenciários para o Master, mencionou conexões políticas entre Amazonas e Rondônia.

“No Amazonas vai dar certo, porque Rondônia é o mesmo grupo de influência”, afirmou.

Em outra mensagem, acrescentou: “Lá é sócio do Rueda”.

O executivo Luiz Rennó também destacou a importância do dirigente partidário em conversas sobre operações no Rio de Janeiro.

Ao tratar de um “assunto RJ, caixa Rueda”, Rennó afirmou a Vorcaro: “Rueda seria nosso cara! Precisaria ter entrado no banco mais cedo! Ele tem alguns estados”.

As referências reforçam que, dentro do Master, a capacidade de articulação política de Rueda era considerada relevante para a estratégia de expansão das captações previdenciárias.

Vorcaro ofereceu aviões e hospedagem de luxo a Rueda

Além das negociações financeiras, as mensagens revelam uma relação de proximidade entre Vorcaro e Rueda.

Em dezembro de 2023, o banqueiro colocou suas aeronaves executivas à disposição do dirigente do União Brasil.

“Usa como seu”, escreveu.

Em maio de 2024, Vorcaro enviou um avião para transportar familiares de Rueda a Miami, nos Estados Unidos, onde ocorreu uma etapa da Fórmula 1.

Outra conversa, de março daquele ano, registra um pedido de Rueda ao banqueiro.

“Cuida de mim”, escreveu o político.

Vorcaro respondeu: “Arrumei o apto? arrumei o Rosewood”, mencionando um apartamento e o Rosewood, hotel de luxo localizado em São Paulo.

Em agosto de 2024, o departamento jurídico do Master apresentou a Vorcaro uma contratação do escritório Rueda & Rueda Advogados para atuar em quatro processos, com valores que totalizavam R$ 15,4 milhões.

A reportagem também aponta que Rueda intermediou contatos entre Vorcaro e a direção do Banco de Brasília (BRB).

Em julho de 2024, após visitar a residência de Rueda em Brasília, Vorcaro enviou sua primeira mensagem ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.

Dois dias depois, o dirigente do União Brasil voltou a mencionar o executivo.

“PH precisando falar c vc”, escreveu Rueda ao banqueiro.

ACM Neto aparece em encontros e conversas com Vorcaro

As mensagens também registram contatos entre ACM Neto, Rueda e Vorcaro ao longo de 2024.

Em setembro daquele ano, os dois dirigentes do União Brasil passaram um fim de semana na residência do banqueiro em Trancoso, no litoral da Bahia. O deputado federal Elmar Nascimento (União-BA) também participou do encontro.

No mês seguinte, ACM Neto solicitou uma reunião com Vorcaro envolvendo Rueda.

“Eu, você e Rueda”, escreveu o ex-prefeito de Salvador.

O encontro ocorreu em uma sala reservada de uma charutaria em São Paulo.

Nove dias depois, ACM Neto enviou uma mensagem ao banqueiro comentando o cenário político em Brasília.

“As coisas em Brasília estão consolidadas e, felizmente, saiu tudo como desejávamos na política”, afirmou.

Na semana seguinte, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como seu operador financeiro, informou ao banqueiro que estava sendo procurado por Marcos Moura, empresário conhecido como “rei do lixo”.

“Marcos Moura (ACM) me chamando. O que eu faço?”, perguntou Zettel.

Vorcaro respondeu: “Pega com Gustavo / E Minas”.

Marcos Moura integra a Executiva do União Brasil e é investigado por suspeitas de irregularidades em licitações relacionadas a grupos políticos da legenda.

Já “Minas” seria uma referência a Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado na proposta de delação de Vorcaro como responsável pela geração de recursos em espécie.

Segundo a reportagem do UOL, o banqueiro afirmou, na proposta rejeitada pela PF e pela PGR, que ACM Neto teria recebido dinheiro em espécie proveniente de recursos gerados por Freixo.

Outras mensagens de Zettel mencionam a procura por pessoas associadas ao ex-prefeito.

“Cara do ACM está aqui em SP na minha cola”, escreveu.

Em outra ocasião, afirmou: “Gustavo me encontrou. Minas tenho que buscar também?”.

Os diálogos divulgados não esclarecem se houve entrega de recursos, tampouco identificam valores ou destinatários de eventuais pagamentos.

Acesso do Master a lista do Ministério da Previdência

A atuação atribuída a ACM Neto também aparece em informações sobre o acesso do Banco Master aos institutos de previdência.

Segundo o UOL, integrantes da instituição financeira atribuíram ao ex-prefeito participação em articulações que teriam contribuído para incluir o banco em uma relação do Ministério da Previdência de instituições habilitadas a receber aplicações de regimes próprios de previdência social.

ACM Neto nega ter interferido nesse processo.

Em manifestação encaminhada à reportagem, afirmou que “nunca teve qualquer tipo de participação no governo federal, o que afasta a possibilidade de interferência em decisões administrativas do Ministério da Previdência e da inclusão do Banco Master na lista exaustiva de instituições elegíveis para receber recursos de RPPS”.

O ex-prefeito também negou ter atuado para direcionar aplicações de fundos previdenciários ao Master, inclusive no caso da Amapá Previdência.

Rueda e ACM Neto negam irregularidades

Procurado pelo UOL, Rueda afirmou que sua relação com o Banco Master era “eminentemente profissional” e que os serviços advocatícios contratados foram realizados com emissão de notas fiscais e pagamento dos tributos correspondentes.

O dirigente também criticou a divulgação das mensagens.

Em nota, declarou lamentar “o uso político de trechos isolados de informações que deveriam estar sob sigilo, mas que foram retirados de contexto com o propósito de criar suspeitas infundadas e atingir sua reputação”.

Acrescentou que “adotará as medidas cabíveis para resguardar sua honra e sua imagem diante da divulgação de acusações falsas e distorções dos fatos”.

ACM Neto, por sua vez, classificou os vazamentos como “seletivos, manipulados e fora de contexto” e atribuiu a divulgação a uma tentativa de desgaste político promovida pelo governo federal.

O ex-prefeito afirmou ainda que desconhece Fabiano Zettel e rejeitou qualquer associação com os diálogos envolvendo o cunhado de Vorcaro.

Segundo sua manifestação, ele “sequer conhece Fabiano Zettel, razão pela qual considera absurda e criminosa qualquer ilação feita na tentativa de associar seu nome a supostos diálogos dos quais não participou e com alguém que jamais teve contato”.

ACM Neto sustentou que os pagamentos recebidos do Master decorreram de um contrato de consultoria iniciado em janeiro de 2023, com prestação efetiva de serviços, emissão de documentos fiscais e recolhimento de impostos.

Também informou que se colocou à disposição das autoridades desde março de 2026 para fornecer esclarecimentos sobre o caso.

Investigações atingem fundos previdenciários de três estados

As suspeitas relacionadas à atuação política em favor do Master integram o contexto da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal para investigar possíveis fraudes envolvendo a instituição financeira.

Na proposta de colaboração rejeitada pelas autoridades, Vorcaro atribuiu a Rueda participação em articulações que teriam facilitado o acesso do banco a institutos previdenciários do Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).

Os fundos previdenciários dos três estados foram alcançados por desdobramentos da investigação.

No Rio de Janeiro, a PF apura operações do Rioprevidência que destinaram aproximadamente R$ 2 bilhões ao Banco Master.

O ex-presidente do instituto, Deivis Marcon Antunes, foi preso pela Polícia Federal em fevereiro de 2026. Segundo a investigação, sua indicação ao cargo teria ocorrido por influência de Rueda, em articulação com o então governador Cláudio Castro (PL).

No Amapá, a aplicação de R$ 400 milhões foi aprovada por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que o indicou para a função.

No Amazonas, a autorização para uma operação de R$ 50 milhões foi assinada por um dirigente que havia assumido a presidência do instituto previdenciário apenas 28 dias antes. Ele havia atuado como contador da campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).

As investigações procuram esclarecer as circunstâncias das aplicações, a participação de intermediários e a eventual existência de vantagens indevidas associadas à destinação de recursos previdenciários ao Banco Master.

Fonte: Otávio Rosso