Lamentos e alívios
A demissão de Pedro Parente da presidência da Petrobras tem um custo alto mas, apesar dos lamentos, e mesmo do pedido que Temer lhe fez para adiar a saída, tornou-se inevitável depois da greve dos caminhoneiros e trouxe alívio para a área política do governo. Permitirá que agora seja implementada com mais liberdade uma política de preços de combustíveis focada no consumidor. A eleição vem aí. Apoiando uma greve que lhe impôs privações, a população mostrou o tamanho de sua irritação. Tal alívio transpareceu nas entrelinhas de várias declarações.
Não houve pressões, mas Parente percebeu o fim do caminho e a proximidade da frigideira. Contrariado desde que precisou conceder o desconto de 10% no preço do diesel, que não ajudou a debelar a greve dos caminhoneiros, anteviu a cobrança por mais concessões, em relação à gasolina e ao gás de cozinha.
Se ele não saísse, o governo iria para a ambiguidade, com um pé em cada canoa. De uma, acenaria à população, temendo novos protestos, com fórmulas para evitar aumentos diários na bomba. De outra, acenaria ao mercado, garantindo a observância da política dolarizante de Parente, com o reembolso das perdas pelos aumentos menos frequentes, como fará com o diesel.
Ontem mesmo, antes da demissão, o ministro das Minas e Energia, Moreira Franco, teoricamente superior hierárquico de Parente, reuniu técnicos, representantes da ANP, de distribuidoras e de postos em busca do que seu secretário-executivo, Marcio Félix, definiu como uma política de preços “voltada para o consumidor, sem prejuízo da política da Petrobras”. Segundo fontes políticas, o governo pretendia transferir à ANP a fixação dos preços da Petrobras, que o governo faria chegar menores aos consumidores por mecanismos ainda não definidos. Parente teria resistido refugado na primeira abordagem, temendo talvez a interferência na ANP.
Em sua carta, ele recusa o jogo proposto: “Está claro, Sr. Presidente, que novas discussões serão necessárias. E, diante deste quadro fica claro que a minha permanência na presidência da Petrobras deixou de ser positiva e de contribuir para a construção das alternativas que o governo tem pela frente.”
Em contraste com declarações de pessoas do mercado, lamentando a saída de Parente e apontando o risco de uma recaída populista, os políticos governistas mal continham o alívio. Depois dos elogios ao demissionário, enfatizavam a necessidade de “previsibilidade” e “sensibilidade”. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, listou qualidades que o presidente da Petrobras precisa ter: “visão empresarial, sensibilidade social e responsabilidade política”. Parente não teria as duas últimas, como tanto se falou no Congresso durante a greve. Romero Jucá, líder do governo no Senado, foi explícito: “A falta de previsibilidade foi a grande falha deste sistema, que funcionaria bem em situações normais, não neste quadro de alta volatilidade internacional. É isso que defendemos”. A líder do MDB, Simone Tebet, foi na mesma linha: “Faltou sensibilidade para entender o momento que o Brasil atravessa”.
A oposição, é claro, festejou. O PT, em nota, acusou Parente de ter feito “manobras contábeis” e de ter divulgado balanços mentirosos. Por isso apoia a criação de uma CPI sobre sua gestão proposta pela senadora Vanessa Grazziotin (PC do B). “Não basta Parente cair, é preciso mudar a política de preços”, disse a presidente do partido, Gleisi Hoffmann.
Todas as centrais sindicais disseram um “já vai tarde”, e com mais gosto a Federação dos Petroleiros, que fez greve pedindo a saída de Parente e recuou diante das pesadas multas impostas pelo TST. Até a ex-presidente Dilma pode faturar: foi ela que levou o novo presidente Ivan Monteiro (interino, talvez efetivo) para a Petrobrás, após a saída de Graça Foster.
O que virá, veremos.
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A POLITICA COMO ELA é (POR : TEREZA CRUVINEL)
Tereza Cruvinel atua no jornalismo político desde 1980, com passagem por diferentes veículos. Entre 1986 e 2007, assinou a coluna “Panorama Político”, no Jornal O Globo, e foi comentarista da Globonews. Implantou a Empresa Brasil de Comunicação - EBC - e seu principal canal público, a TV Brasil, presidindo-a no período de 2007 a 2011. Encerrou o mandato e retornou ao colunismo político no Correio Braziliense (2012-2014). Atualmente, é comentarista da RedeTV e agora colunista associada ao Brasil 247; E colaboradora do site www.quenoticias.com.br