Durigan herda desafio de gerir dívida de quase 80% do PIB em meio à crise do petróleo
O novo comandante do Ministério da Fazenda, o advogado Dario Durigan, assumiu o papel de Fernando Haddad, que deixou de ser ministro para se candidatar ao governo de São Paulo, em um momento absolutamente desafiador. Anteriormente secretário-executivo no ministério e segundo no comando da pasta, ele já era ventilado no meio político como o sucessor mais provável – com indicação do agora ex-chefe -, o que se confirmou na quinta-feira, 19, em evento na capital paulista com Haddad e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Às vésperas de ser anunciado, Durigan foi escolhido para apresentar uma proposta do governo federal para que os estados zerem temporariamente a cobrança de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) sobre importação do diesel, uma medida tomada para conter os efeitos da guerra do Irã. Ainda como secretário-executivo, ele divulgou o plano e respondeu às perguntas da imprensa.
Nesta semana, falou com jornalistas sobre um projeto substituto, para que os estados e o governo dividam o custo de uma subvenção à importação do combustível. A expectativa é que os estados deem uma resposta até a segunda-feira, 30, após avaliação dos governadores.
No evento da quinta-feira, a 17ª Caravana Federativa, promovido pelo governo federal com objetivo de aproximar os ministérios da sociedade, Lula foi direto. “O companheiro Durigan será o substituto do Fernando Haddad no Ministério da Fazenda. Olhem bem para a cara dele, porque é dele que vocês vão cobrar muitas coisas”, disse. O presidente tem repetido o ato de apresentar Durigan a todos os presentes nas reuniões pelas quais passam.
Durigan comentou sobre sua relação com o presidente na última quinta-feira, 26. Disse ter recebido a missão de garantir que “o preço que a guerra vai impor ao mundo e ao Brasil não chegue às famílias”. Afirmou ainda seu compromisso com a garantia de tornar visíveis para a população conquistas do governo enumeradas por ele. “Quando vocês lembram de ter um Brasil com inflação sob controle, crescimento contínuo e sustentável, com as pessoas saindo do mapa da fome, nível de emprego aumentando? Isso é raro”, disse.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda interino, Dario Durigan, em cerimônia no Palácio do Planalto. Brasília (DF), 07/01/2026 (Crédito:Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Missões complexas
O novo ministro herda os desafios enfrentados por Haddad para manter uma ampla gama de auxílios e incentivos em meio a uma dinâmica fiscal complexa. A dívida pública sobre o PIB chegou a 78,7% em janeiro. Com a instabilidade gerada pelo conflito no Oriente Médio, a complexidade de gerir as contas públicas aumenta ainda mais.
Além disso, Durigan assume o ministério com um orçamento comprimido por gastos obrigatórios e tem como missão negociar a agenda econômica com um Congresso Nacional acuado pelo escândalo de fraudes envolvendo o Banco Master e em meio ao período eleitoral, que historicamente leva o Legislativo a reduzir o ritmo das atividades e resistir a medidas de ajuste fiscal, em geral impopulares.
Para o diretor nacional do Ibmec, Reginaldo Nogueira, Durigan vai continuar com os mesmos desafios que Haddad já enfrentava este ano. “Pressão por aumento de gastos, um arcabouço fiscal que não consegue entregar suas metas, pressão do mercado a respeito de um horizonte de longo prazo”, analisou.
A troca de comando se dá em um momento de maiores incertezas em função da guerra, o que tende a pressionar a inflação com a alta de preços do petróleo. Isso levou o governo a adotar medidas tributárias de socorro, com o cenário complexo ampliando a cautela do Banco Central em seu plano de cortar os juros.
Entre as pautas prioritárias negociadas por Haddad e que seguem pendentes estão a limitação de supersalários no serviço público, reforma da previdência de militares, regulamentação econômica de big techs e normas microeconômicas. A Fazenda também deverá enviar ao Congresso projeto que regulamenta o novo Imposto Seletivo, criado na reforma tributária sobre o consumo para incidir sobre bens e serviços nocivos à saúde e ao meio ambiente.
Quem é Durigan?
Homem de confiança de Haddad, Durigan trabalhou com o petista quando ele foi prefeito de São Paulo. Naquela ocasião, atuou como conselheiro de administração da empresa pública SP Urbanismo e no assessoramento direto de Haddad, coordenando as secretarias e auxiliando na interlocução com a Câmara Municipal.
Já no governo federal, assumiu o cargo de secretário-executivo da Fazenda em 2023, substituindo Gabriel Galípolo (hoje, presidente do Banco Central). Desde então, teve uma atuação discreta, com poucas falas públicas. Em suas declarações, manteve um discurso alinhado com Haddad, de defesa de ajustes fiscais por meio da expansão de receitas. “A gente faz esse ajuste fiscal diferente do que fez a Argentina, por exemplo, botando mais da metade da população na pobreza”, afirmou, em junho do ano passado.
A indicação em si para substitui Haddad já era esperada. Estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz afirmou que “antes de entrar no governo, o que Durigan escreveu e falou é muito mais tranquilo para o mercado financeiro do ponto de vista da ortodoxia econômica”. Cruz observou que o próprio Galípolo tinha escrito artigos com o ministro Haddad bem mais heterodoxos.
De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, Durigan não tem uma agenda política própria. Espera-se que ele dê continuidade ao trabalho como já ocorre no ministério. “O desempenho à frente do ministério dependerá de sua capacidade de manter o diálogo com o Congresso, com o mercado e com outras áreas do governo”, disse o economista Fábio Murad, CEO da Super-ETF Educação.
Durigan também passou por cargos públicos em dois momentos na Advocacia-Geral da União. Primeiro, no Departamento de Gestão Estratégica entre 2010 e 2011. Depois, como consultor jurídico da União entre 2017 e 2019, período no qual foi membro fundador do Núcleo de Arbitragem da AGU.
No setor privado, foi diretor de políticas públicas do WhatsApp entre 2020 e 2023. Também foi presidente do Conselho de Administração do Banco do Brasil. Atualmente, é membro do Conselho Fiscal da Vale.
Em relação à formação, Durigan é advogado graduado na Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Brasília (UnB), com dissertação sobre “Desobediência Democrática no Brasil”. Ter profissionais de fora da economia no comando da Fazenda não é inédito. O exemplo mais notório da Nova República é o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que liderou a pasta no governo Itamar Franco e coordenou a implementação do Plano Real.
A nova equipe da Fazenda
Na segunda-feira, 23, o ministro Dario Durigan anunciou a nova composição da Fazenda. Em publicação no X, ele destacou Rogério Ceron no lugar até então ocupado por ele, de secretário-executivo, ou “número 2” do ministério. Ele ocupava o posto de secretário do Tesouro Nacional. “Confio na sua capacidade de entrega, e destaco que seu trabalho à frente do Tesouro foi fundamental para avançarmos com nossa agenda nos últimos anos”, escreveu Durigan.
Como secretária-executiva adjunta, assume Úrsula Peres, professora da USP e especialista em políticas públicas. Daniel Leal fica à frente do Tesouro Nacional. Para chefe de gabinete, Durigan escolheu Fábio Terra, e Flavia Renó como assessora especial. A liderança da Secretaria de Assuntos Internacionais (Sain) ficou com Mathias Alencastro e a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), com Daniele Cardoso.