A Lava Jato e seu epitáfio
"Nessa hora de balanço sobre os dez anos da Operação, a mídia, seus donos e alguns de seus profissionais, veriam um retrato nada lisonjeiro", dizTereza Cruvinel
A Lava Jato acabou mas seu espirito continua solto, e frequentemente aparece algum “médium” falando em nome dela, além de seus agentes desmoralizados, como Moro e Dellagnol, que estão na mídia tentando reescrever a história. Não foram os crimes e danos ao Estado de Direito que a enterraram, dizem eles, mas a ação dos políticos para conter o combate à corrupção. O STF, andou dizendo Dallagnol, ao acabar com a Lava Jato “garantiu que ninguém mais será preso por corrupção”.
Sofismar é o que lhe resta. O que precisamos garantir é que juízes e procuradores, como ele e Moro, jamais sejam capazes de enganar o país, de torcer a lei para perseguir adversários, de esgarçar a democracia para alcançar seus objetivos políticos. O enterro da Lava Jato exige que ainda falemos dela.
Recentemente uma pesquisa Quaest perguntou aos entrevistados se a Lava Jato fez mais bem ou mal ao Brasil. E o resultado foi que, para 50%, os benefícios foram maiores, contra apenas 28% que responderam ter sido maior o mal causado. Este resultado, depois de tantas revelações, mostra o quão poderosa foi a manipulação da opinião pública. Neste sentido, um dos agentes da Lava Jato pode se dizer vitorioso: a mídia.
A Vaza Jato e a Operação Spoffing, que atestou a autenticidade das conversas raqueadas entre integrantes do comando da operação, já mostraram à exaustão que a Lava Jato foi, como já disse o ministro Gilmar Mendes, “a maior farsa jurídica da história do país”.
Tendo Lula, que chamavam de “o nove”, por conta de seu dedo pedido na prensa, como alvo claro desde o início, a lista dos males causados pela Lava Jato dá um rosário: ela concentrou processos na vara indevida de Curitiba, manipulou e torturou psicologicamente investigados para forçá-las a fazer delações, montou uma cooperativa entre os procuradores e o juiz, submeteu-se a interesses estrangeiros e violentou o processo eleitoral de 2018, acelerando a condenação de Lula para que ele não concorresse, abrindo caminho para o golpista que retribuiu a ajuda de Moro com o Ministério da Justiça. No percurso, a Lava Jato também destruiu empresas e empregos e ajudou a disseminar o ódio e o sentimento antipolítica que levaram ao resultado de 2018.
Nada disso, entretanto, teria sido possível sem o concurso decisivo da mídia. Na cobertura parcial da Lava Jato faltou empenho na apuração, questionamento e investigações próprias sobre as acusações feitas por Curitiba. Faltou distanciamento entre jornalistas e suas fontes. O endosso absoluto à operação e o endeusamento de Moro forjaram o apoio popular que lhe deu longa vida e impunidade. Nessa hora de balanço sobre os dez anos da Operação, se tivesse a honestidade de olhar-se no espelho, relendo as conversas raqueadas, a mídia, seus donos e alguns de seus profissionais, veriam um retrato nada lisonjeiro. Mas seria esperar muito de quem se recusa a escrever o epitáfio da Lava Jato.
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A POLITICA COMO ELA é (POR : TEREZA CRUVINEL)
Tereza Cruvinel atua no jornalismo político desde 1980, com passagem por diferentes veículos. Entre 1986 e 2007, assinou a coluna “Panorama Político”, no Jornal O Globo, e foi comentarista da Globonews. Implantou a Empresa Brasil de Comunicação - EBC - e seu principal canal público, a TV Brasil, presidindo-a no período de 2007 a 2011. Encerrou o mandato e retornou ao colunismo político no Correio Braziliense (2012-2014). Atualmente, é comentarista da RedeTV e agora colunista associada ao Brasil 247; E colaboradora do site www.quenoticias.com.br