Tá na cara: Derziê, homem de Temer, substituiu Geddel no esquema da CEF

O governo Temer é um campo minado. Onde cavar, sai água podre. Roberto Derziê Santana, um dos quatro vice-presidentes da CEF que relutou em afastar e só o fez temporariamente, em claro movimento de autoproteção, é homem de sua proximidade e confiança. Os afastados são suspeitos de corrupção e de repassar, a Temer e ao ministro Moreira Franco, informações sobre operações financeiras sigilosas. Depois de ter sido diretor-executivo de Pessoa Jurídica da Caixa, entre 2011 e 2013, Derziê foi nomeado secretário-executivo da Secretaria de Relações Institucionais (SRI) da Presidência, em 2015, quando Temer, ainda vice de Dilma, assumiu a pasta para exercer a coordenação política do governo. Depois do golpe, voltou para a CEF. A nova investigação em curso na CEF sugere que Derziê passou a fazer o papel antes desempenhado por Geddel Vieira Lima, que informava Eduardo Cunha dos pleitos de empresários que seriam achacados e lhes pagariam propinas.
Este esquema foi deslindado pela Operação “Cui Bono?”, deflagrada em 13 de janeiro do ano passado, a partir de registros encontrados no celular de Cunha durante a Operação Catilinárias, de 2015.
A Cui Bono? mirou Geddel, Cunha, Lucio Funaro, Cleto Falcão e, ainda de raspão naquela época, Derziê. O Ministério Público concluiu que eles desviaram, “de forma reiterada, recursos públicos a fim de se beneficiarem, por meio do recebimento de vantagens ilícitas” das empresas para quem facilitavam a liberação de empréstimos, através do FI-FGTS e de outras linhas de crédito. Mais tarde, Cleto e Funaro confirmariam o esquema em suas delações.
Na operação, a PF encontrou papeis e registros eletrônicos em que Geddel e Cunha discutiam os pleitos financeiros das empresas, taxas de juro, prazos e valores das operações, bem como providências para atendê-las. Uma lista apreendida, denominada “Pipe Line Geddel”, fazia referências a empresas como Eldorado, Flora, Vigor, Bertin e J&F. Em outro papel, chamado de “Pendência Geddel”, foram listadas operações de crédito envolvendo a J&F, a Hypermarcas e a Gol. Outro favorecido foi Eike Batista. As propinas eram pagas tanto em contas na Suíça como em dinheiro vivo e também para empresas do operador Lúcio Funaro. Numa tronca de mensagens por telefone, Geddel relata a Cunha as pendências do grupo J&F com o FI-FGTS e avisa: “Fala p regularizar la”. Em outra mensagem, Cunha aciona Geddel em relação ao pleito do Grupo Bertin: “Precisa ver no assunto da bertin a carta de conforto com os termos que necessita”.
Agora, Investigação independente conduzida pelo escritório Pinheiro Neto encontrou indícios de que Derziê Sant'Anna fornecia informações sobre operações em trâmite no banco a Temer e a Moreira Franco, ou a pedidos dos dois. O resultado da apuração foi remetido ao Comitê Independente da Caixa e ao Ministério Público Federal (MPF), dando origem ao pedido de afastamento dos vice-presidentes, endossado pelo MPF e pelo Banco Central. Temer relutou o quanto pôde e só ontem, depois que o MPF advertiu que ele poderá ser responsabilizado por ilícitos que venham a ser comprovados, afastou temporariamente quatro vices, inclusive o de Governo, que é Derziê. Os outros são Deusdina dos Reis Pereira (Fundos de Governo e Loterias), Antônio Carlos Ferreira (área Corporativa) e José Henrique Marques da Cruz, chefe da área de Clientes, Negócios e Transformação Digital. Temer, como sempre, trata de blindar os agentes do esquema do PMDB e de evitar atritos com os outros partidos aliados que também fizeram indicações.
Moreira Franco declarou nesta quarta-feira, 17, que se algum dia pediu alguma informação a Derziê, foi dentro do contexto funcional. Ocorre que um vice-presidente da CEF não tem qualquer relação funcional com o ministro-chefe da Secretaria de Governo. Seu superior hierárquico é o ministro da Fazenda.
O Conselho de Administração da CEF não se contentou com o afastamento provisório, por apenas 15 dias, determinado por Temer. Quer o afastamento definitivo dos quatro, para evitar danos maiores à imagem do banco. Gilberto Occhi, presidente da CEF, informou que em breve será aprovado o novo estatuto da instituição, estabelecendo, entre outras regras, que os vice-presidentes deixarão de ser nomeados pelo presidente da Repúblico, passando a serem aprovados pelo Conselho. Se ao propor a Lei das Estatais, Temer tivesse buscado mesmo a moralização, nela teria incluído esta norma.
O que parece claro é que o esquema investigado pela Cui Bono? prosseguiu. Se as investigações se aprofundarem, o novo escândalo pode alcançar o Palácio do Planalto e talvez até gerar uma nova denúncia.
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A POLITICA COMO ELA é (POR : TEREZA CRUVINEL)
Tereza Cruvinel atua no jornalismo político desde 1980, com passagem por diferentes veículos. Entre 1986 e 2007, assinou a coluna “Panorama Político”, no Jornal O Globo, e foi comentarista da Globonews. Implantou a Empresa Brasil de Comunicação - EBC - e seu principal canal público, a TV Brasil, presidindo-a no período de 2007 a 2011. Encerrou o mandato e retornou ao colunismo político no Correio Braziliense (2012-2014). Atualmente, é comentarista da RedeTV e agora colunista associada ao Brasil 247; E colaboradora do site www.quenoticias.com.br