Quando é que FHC, OAB e outros apoiadores do golpe farão autocrítica?

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso considerou a portaria do trabalho escravo “um retrocesso inaceitável”. Claudio Lamachia, presidente da OAB, classificou a medida de Temer como “um imenso retrocesso” que fere o Código Penal. Em editorial, o jornal O Globo disse que a portaria “tem cheiro , forma e cores de mercadoria política para barganha no Congresso”. Estes e outros atores que agora criticam os retrocessos em série produzidos pelo governo Temer apoiaram o golpe de 2016. Fazem críticas pontuais ao governo mas ainda não fizeram uma autocrítica pelo pecado original que cometerem, apoiando a ruptura democrática, a derrubada de uma presidente eleita e a imposição de um governo ilegítimo para implementar uma agenda que não foi aprovada pelas urnas. Redenção histórica só haverá para eles se admitirem que o impeachment foi um erro e deve ser anulado, até porque foi aprovado com votos comprados por Eduardo Cunha.
FHC já sugeriu a renúncia de Temer mas nunca fez autocrítica por ter apoiado o golpe. Agora assiste à decomposição de seu partido, o PSDB, por conta do contubérnio com Temer, que os tucanos ajudarão a salvar na segunda denúncia, depois da ajuda que receberam para a salvação de Aécio Neves. Os tucanos optaram irremediavelmente pela condenação histórica mas para o ex-presidente ainda há tempo para que espane a biografia, reconheça o erro do golpe e apoie a anulação do impeachment. A anulação não nos levará de volta ao início do governo Dilma, que foi sabotado e inviabilizado, mas criará as condições para a convocação de eleições diretas imediatamente. É o que faria Dilma se lhe fosse devolvido o mandato roubado.
A OAB, afastando-se de sua tradição democrática, apoiou o impeachment de Dilma e foi até autora de um dos pedidos. Diante do desastre produzido pelo governo Temer e das revelações sobre sua miséria moral, pediu o impeachment dele e tem criticado os retrocessos, como fez agora diante da mudanças das regras sobre trabalho escravo. Pedir o impeachment de Temer não anula o erro de ter apoiado o golpe. Reconhecendo o erro e a necessidade de anulação do processo viciado do impeachment de Dilma, a OAB resgataria o papel que sempre teve nas lutas pela democracia no Brasil.
A mídia segue com sua esquizofrenia. As Organizações Globo agora combatem o governo Temer e suas medidas desastrosas na área econômica, social, ambiental e moral. A revista Veja, na edição desta semana, estrila contra o “acordão da impunidade” que salvou Aécio Neves e salvará Temer da segunda denúncia. O golpe que a mídia apoiou era também para isso mas dela não virá o ato de contrição, o reconhecimento de que derrubar Dilma foi um erro que só pode ser reparado com a anulação do impeachment.
Mas é o Supremo, que coonestou o golpe com sua omissão, que deveria liderar a penitência, colocando em pauta o pedido de mandado de segurança do advogado de Dilma, José Eduardo Cardoso. Ele agora juntou ao processo a revelação de Lucio Funaro de que providenciou dinheiro para Eduardo Cunha comprar votos a favor do impeachment. Em breve, aportará também no STF a ação popular, com milhares de assinaturas, pedindo a anulação do impeachment. É a chance que se abre para o Supremo se redimir e promover um verdadeiro acordo nacional pela democracia.
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A POLITICA COMO ELA é (POR : TEREZA CRUVINEL)
Tereza Cruvinel atua no jornalismo político desde 1980, com passagem por diferentes veículos. Entre 1986 e 2007, assinou a coluna “Panorama Político”, no Jornal O Globo, e foi comentarista da Globonews. Implantou a Empresa Brasil de Comunicação - EBC - e seu principal canal público, a TV Brasil, presidindo-a no período de 2007 a 2011. Encerrou o mandato e retornou ao colunismo político no Correio Braziliense (2012-2014). Atualmente, é comentarista da RedeTV e agora colunista associada ao Brasil 247; E colaboradora do site www.quenoticias.com.br