‘Não quero que se transforme no Che Guevara brasileiro’, diz viúva de Marielle sobre roupas na São Paulo Fashion Week

30 de abril de 2019 297

Reportagem de Arthur Leal, Chico Otávio e Vera Araújo no Globo informa que, entre os itens expostos na coleção do estilista Ronaldo Fraga , no último sábado, na São Paulo Fashion Week ( SPFW ), chamaram atenção camisas e sapatos — entre outras peças — com o rosto de Marielle Franco , vereadora do PSOL assassinada em março de 2018 junto com o motorista Anderson Gomes , numa emboscada no Estácio, região central da cidade. Para a viúva da Marielle, Mônica Benício , faltou empatia ao artista, o que ela define como um desrespeito à família. Ela diz temer que a figura de sua companheira se torne algo comercial como aconteceu com Che Guevara. “Fiquei sabendo do desfile através das redes sociais. Muitas pessoas vieram me mostrar o conteúdo do desfile com caráter de denúncia, perguntando se eu sabia daquilo e o que eu achava. Acho que o evento Fashion Week em São Paulo com a potência que tem no mundo da arte e da moda sem dúvida tem uma grande contribuição social quando tenta trazer uma pauta como o racismo. Mas eu acho que temos que ter sensibilidade com assuntos que a gente aborda. Uma das minhas preocupações hoje com a imagem de Marielle é para que ela não seja consumida pelo capitalismo e acabe se transformando no Che Guevara brasileiro. Acho que o estilista poderia ter se manifestado de muitas outras maneiras, inclusive, pedindo justiça para Marielle”, disse Mônica.

De acordo com a publicação, ela conclui, dizendo que foi muito difícil ver a forma com que Marielle foi retratada nas blusas. Mônica afirma que sentiu como se fosse uma “reafirmação” da execução. Num sapato, a ex-vereadora é retratada com um alvo na testa, e numa blusa, um tecido vermelho simula marcas de tiro.

“Temos que ter cuidado para não reproduzirmos práticas opressoras de violência. Marielle não é um símbolo deslocado. Não foi fácil ver a blusa fazendo alusão ao assassinato dela, e acho que, de alguma maneira, reafirmando a execução. Há muitas pessoas que sentem diariamente a falta da Marielle, para além da figura de representatividade e resistência que ela se tornou. Já é muito violento lidar diariamente com a ausência dela. Faltou um pouco de empatia e solidariedade na abordagem. Talvez se a família tivesse sido consultada, a gente teria evitado este mal estar. Não foi fácil ver este material, e honestamente, eu achei bastante desrespeitoso com as pessoas que amam a Marielle. Mas compreendo que não foi a intenção do estilista. Compreendo que ele queria passar uma mensagem”, completou, diz o Jornal O Globo.