‘Não quero que se transforme no Che Guevara brasileiro’, diz viúva de Marielle sobre roupas na São Paulo Fashion Week
Reportagem de Arthur Leal, Chico Otávio e Vera Araújo no Globo informa que, entre os itens expostos na coleção do estilista Ronaldo Fraga , no último sábado, na São Paulo Fashion Week ( SPFW ), chamaram atenção camisas e sapatos — entre outras peças — com o rosto de Marielle Franco , vereadora do PSOL assassinada em março de 2018 junto com o motorista Anderson Gomes , numa emboscada no Estácio, região central da cidade. Para a viúva da Marielle, Mônica Benício , faltou empatia ao artista, o que ela define como um desrespeito à família. Ela diz temer que a figura de sua companheira se torne algo comercial como aconteceu com Che Guevara. “Fiquei sabendo do desfile através das redes sociais. Muitas pessoas vieram me mostrar o conteúdo do desfile com caráter de denúncia, perguntando se eu sabia daquilo e o que eu achava. Acho que o evento Fashion Week em São Paulo com a potência que tem no mundo da arte e da moda sem dúvida tem uma grande contribuição social quando tenta trazer uma pauta como o racismo. Mas eu acho que temos que ter sensibilidade com assuntos que a gente aborda. Uma das minhas preocupações hoje com a imagem de Marielle é para que ela não seja consumida pelo capitalismo e acabe se transformando no Che Guevara brasileiro. Acho que o estilista poderia ter se manifestado de muitas outras maneiras, inclusive, pedindo justiça para Marielle”, disse Mônica.
De acordo com a publicação, ela conclui, dizendo que foi muito difícil ver a forma com que Marielle foi retratada nas blusas. Mônica afirma que sentiu como se fosse uma “reafirmação” da execução. Num sapato, a ex-vereadora é retratada com um alvo na testa, e numa blusa, um tecido vermelho simula marcas de tiro.
“Temos que ter cuidado para não reproduzirmos práticas opressoras de violência. Marielle não é um símbolo deslocado. Não foi fácil ver a blusa fazendo alusão ao assassinato dela, e acho que, de alguma maneira, reafirmando a execução. Há muitas pessoas que sentem diariamente a falta da Marielle, para além da figura de representatividade e resistência que ela se tornou. Já é muito violento lidar diariamente com a ausência dela. Faltou um pouco de empatia e solidariedade na abordagem. Talvez se a família tivesse sido consultada, a gente teria evitado este mal estar. Não foi fácil ver este material, e honestamente, eu achei bastante desrespeitoso com as pessoas que amam a Marielle. Mas compreendo que não foi a intenção do estilista. Compreendo que ele queria passar uma mensagem”, completou, diz o Jornal O Globo.