Liquidante do Master mira R$ 4,8 bilhões em bens e fundos de Vorcaro

20 de março de 2026 29

O liquidante do Banco Master mira ao menos R$ 4,8 bilhões em bens e fundos de investimentos ligados a Daniel Vorcaro que podem ter sido desviados pelo banqueiro antes da liquidação da instituição financeira pelo Banco Central (BC), em novembro do ano passado.

Os itens são listados em ação judicial obtida pelo Metrópoles que foi movida pelo liquidante do Master na 3ª Vara de Falências da Justiça de São Paulo, com o objetivo de resguardar os direitos de credores do banco e evitar a dilapidação dos bens supostamente desviados.

Conforme revelado pelo Metrópoles, no dia 17 de março, o juiz Adler Batista Oliveira Nobre apontou indícios de desvio bilionário do patrimônio do Master antes da liquidação e deferiu o pedido de protesto contra alienações em 19 imóveis, 13 empresas e três fundos de investimentos.

A maioria dos imóveis e dos fundos seria ligado, direta ou indiretamente, a Vorcaro e ao cunhado dele, Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal (PF) como operador financeiro do banqueiro – ambos estão presos desde o dia 4 de março.

Na prática, a decisão do juiz da Vara de Falências serve para dar publicidade ao patrimônio envolvido na liquidação do Master e alertar terceiros de que eventual aquisição de tais bens pode ser considerada ineficaz.

Nomeado pelo BC no caso do Master, o liquidante é a pessoa física ou jurídica designada para realizar o encerramento de uma empresa, sendo responsável por vender ativos, quitar dívidas e concluir as operações, geralmente em casos de falência ou liquidação.

O valor de R$ 4,8 bilhões foi calculado pela reportagem a partir da consolidação das cifras citadas na ação judicial, que se referem a dados brutos de imóveis, investimentos, participações societárias e estimativas de ganhos.

Procurada pelo Metrópoles, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não se manifestaria sobre o tema.

Mansão e cobertura duplex

Dos 19 imóveis listados no país, o liquidante citou quatro especificamente. O mais valioso é uma mansão em Brasília, avaliada em R$ 36 milhões, em nome da empresa Super Empreendimentos, que era controlada pelo cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, segundo a PF.

No nome da mesma empresa, também é citada uma cobertura duplex no Jardim Paulista, bairro rico de São Paulo, avaliada em R$ 30 milhões. Esse é o mesmo imóvel que Vorcaro chegou a oferecer à modelo Izabel Goulart como um investimento na marca de produtos de beleza que seria lançada por ela, conforme revelado pelo Metrópoles.

Um terceiro imóvel citado em nome da Super Empreendimentos é outro duplex, na Vila Nova Conceição, com valor estimado em R$ 3,2 milhões.

Outro apartamento citado fica em um prédio de luxo na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, também na Vila Nova Conceição, avaliado em R$ 4,3 milhões. O imóvel foi inicialmente adquirido pela Viking Participações, ligada a Vorcaro, e vendido à Super Empreendimentos, que, por sua vez, doou o apartamento a Karolina Santos Trainotti, com quem o banqueiro mantinha um relacionamento.

Somente esses quatro imóveis somam R$ 73 milhões, mas há ainda 15 matrículas cujos valores não foram inscritos na ação do liquidante. Embora não tenha tido sua matrícula inscrita com o protesto por estar no exterior, a ação também cita uma mansão em Orlando, avaliada em R$ 180 milhões, cuja existência foi revelada pela coluna Andreza Matais, no Metrópoles.

Fundos bilionários

A ação também cita diversas movimentações entre fundos. O protagonista de boa parte das transações é o fundo Astralo 95, ligado ao grupo de Vorcaro. Cita-se, por exemplo, uma venda de cotas do fundo Hans II no valor de R$ 294 milhões ao fundo Itabuna, que tem como cotista único o Astralo.

Vale ressaltar que as cotas do fundo Hans tinham sido adquiridas por Vorcaro por apenas R$ 2,5 milhões; com a transação, houve lucro de R$ 292 milhões – um retorno de 11.400%, segundo a ação.

As apurações do liquidante também identificaram um “mecanismo sistemático de desvio de recursos diretamente de fundo controlado pelo Grupo Master para o Fundo Astralo 95”. O fundo Máxima 2, por exemplo, teria feito transferências de R$ 285 milhões.

Ainda em relação ao Astralo, a ação cita a participação em outro fundo, o Termópilas, no valor de R$ 458 milhões; e R$ 2,1 bilhões em participações no fundo Rio Vermelho. Nesse montante, um dos destaques seria relativo à participação do Rio Vermelho em uma empresa relacionada à aviação, a Prime Aviation 2 — atual Domus Realty Participações.

Além disso, documentos localizados pelo liquidante indicam que a Super Empreendimentos realizou operações de crédito com o Grupo Master, no montante de R$ 27,5 milhões. Fabiano Zettel exerceria o controle da empresa por meio do fundo Kairos.

Avião, hotel e ganhos

O liquidante do Master também aponta supostos ganhos de capital “exorbitantes” envolvendo fundos de investimento. Os documentos citam dados que fazem parte de dois mandados de segurança nos quais Vorcaro requereu regularização sobre uma série de fundos pedidos por ele. De acordo com a ação, o valor devido a título de imposto de renda era de R$ 200 milhões, o que ensejou a estimativa de que, apenas em 2023, ele teria auferido capital de R$ 800 milhões.

O documento também citou movimentações relacionadas a Vorcaro e seu grupo como a suposta venda do Hotel Botanique, em Campos do Jordão (SP), por R$ 150 milhões, de um jatinho Gulfstream G700 avaliado em cerca de US$ 80 milhões, e de uma casa em Orlando avaliada em R$ 180 milhões.

Liquidação do Master e prisões de Vorcaro

  • O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025, em meio a uma crise de liquidez e ao escândalo de fraude envolvendo a compra da instituição de Daniel Vorcaro pelo Banco de Brasília (BRB).
  • Estima-se que o rombo deixado pelo Banco Master a investidores seja superior a R$ 50 bilhões. Parte dessa conta recaiu sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que pagou investidores que tinham até R$ 250 mil aplicados no Master.
  • Junto com a liquidação do Master, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, que resultou na prisão de Daniel Vorcaro, por suspeita de crimes financeiros.
  • Vorcaro ficou 11 dias preso em São Paulo e foi libertado pela Justiça mediante uso de tornozeleira eletrônica.
  • Em março deste ano, Vorcaro foi preso preventivamente de novo, na terceira fase da Operação Compliance Zero, por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça.
Fonte: Artur Rodrigues