Inflação alivia pressão, mas BC não dá certeza sobre queda de juros

12 de agosto de 2026 13

A desaceleração da inflação em julho trouxe um alívio parcial para o cenário econômico e reforçou a percepção de que há espaço para novos cortes na taxa básica de juros.

Ainda assim, o Banco Central (BC) evitou dar qualquer indicação mais clara sobre os próximos passos da política monetária, mantendo a incerteza sobre a trajetória da Selic nos próximos meses.

Dados divulgados nesta terça-feira (11/8) mostram que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,07% em julho, após alta de 0,16% em junho, indicando perda de fôlego da inflação no curto prazo.

No acumulado de 12 meses, o índice ficou em 4,44%, retornando ao intervalo de tolerância da meta perseguida pelo BC, após dois meses acima do teto.

A meta de inflação para 2026 é de 3% ao ano, com variação de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Com isso, o índice tem piso de 1,5% e teto de 4,5%, conforme estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O resultado foi influenciado principalmente pela queda nos preços de alimentos, que ajudaram a conter o avanço do índice, mesmo diante da pressão em itens como habitação, especialmente energia elétrica.

Apesar do alívio no indicador, o Comitê de Política Monetária (Copom) tem adotado um discurso cauteloso. Na ata da última reunião, divulgada nessa terça, o colegiado voltou a destacar fatores de risco relevantes para o cenário inflacionário, como a desancoragem das expectativas e as incertezas no ambiente fiscal, indicando que a condução da política monetária seguirá dependente da evolução dos dados.

A autoridade monetária sinalizou que novos cortes de juros não estão descartados, mas evita qualquer compromisso antecipado.

A estratégia é manter flexibilidade diante de um ambiente ainda considerado desafiador, em que a melhora recente da inflação convive com riscos que podem comprometer a convergência para a meta no horizonte relevante.

De acordo com o conselheiro da Ancord, Pablo Spyer, a principal surpresa do comunicado foi o tom mais contundente em relação às expectativas de inflação.

“O trecho mais importante é quando o Copom afirma que, em um ambiente de expectativas desancoradas, é necessária uma política monetária restritiva maior e por mais tempo. Isso reforça que o Banco Central está disposto a manter os juros elevados pelo tempo necessário para recuperar a credibilidade da meta”, avaliou.

 

Para o economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles, a ata do Copom reforça cautela, mas mantém porta aberta para cortes.

Ele explica que diferentemente da ata anterior, o texto retirou a referência explícita a “pausas e retomadas do ciclo de calibração” e afirmou que “a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário”.

“Na nossa visão, a ata segue compatível com o nosso cenário de Selic estável em 14% até o fim do ano. A desancoragem das expectativas, a assimetria altista do balanço de riscos e a inflação ainda pressionada recomendam cautela. Ainda assim, não descartamos novos cortes de juros, já que a comunicação deixou em aberto os passos futuros de política monetária”, disse.

 

Diante desse quadro, o mercado financeiro está dividido entre a leitura de que há espaço para ao menos mais um corte na Selic, e a percepção de que o BC pode adotar um ritmo mais lento ou até interromper o ciclo caso os riscos se intensifiquem.

Entenda a situação dos juros no Brasil

  • Selic é a principal ferramenta utilizada pelo BC para conter a inflação e controlar a trajetória dos preços na economia;
  • Cabe ao Copom avaliar o cenário econômico e decidir pela redução, manutenção ou elevação da taxa básica de juros;
  • Quando os juros sobem, a tendência é que consumo e investimentos percam força, já que o custo do dinheiro aumenta para famílias e empresas;
  • Com o crédito mais caro, a atividade econômica tende a desacelerar. O objetivo é reduzir a pressão sobre a demanda e, consequentemente, contribuir para a moderação dos preços de bens e serviços;
  • As projeções mais recentes indicam que o mercado não espera que a Selic volte a um patamar de um dígito durante o restante do governo Lula e do mandato de Gabriel Galípolo na presidência do BC.

Expectativas do mercado para a Selic

Analistas do mercado financeiro, consultados semanalmente no relatório Focus, estimam que a taxa básica de juros, a Selic, feche 2026 em 13,75% ao ano. Ou seja, não há expectativa de novos aumentos na taxa, mas o mercado acredita em novos cortes, na proporção de 0,25 pontos percentuais.

As estimativas para os próximos anos são as seguintes, confira abaixo:

  • Para 2027, a previsão da taxa de juros é de 12% ao ano;
  • Para 2028, a estimativa continua em 10,50% ao ano;
  • Para 2029, a estimativa é de 10% ao ano.

Próximas reuniões do Copom: 

  • 15 e 16 de setembro;
  • 3 e 4 de novembro;
  • 8 e 9 de dezembro.
Fonte: Gabriela Pereira