Fundos de crédito privado e a renda fixa que não é tão “fixa” assim

6 de agosto de 2026 18

Ouvi recentemente um episódio do podcast Second Level, em que Samuel Ponsoni entrevista Victor Tofolo, gestor de crédito da Bradesco Asset Management. A conversa parte de uma constatação simples, mas que costuma passar despercebida: renda fixa não é sinônimo de risco zero. Fundos de crédito, debêntures, CRIs e CRAs carregam camadas de risco — de liquidez, de marcação a mercado, de crédito do emissor — que o nome “fixa” tende a deixar em segundo plano. 

Não é motivo para alarme mas sim, é motivo para olhar com mais atenção. E o próprio mercado brasileiro, ao longo de 2026, deu bons exemplos práticos para essa conversa. 

Um CDB, uma debênture ou uma cota de fundo de crédito é, no fim das contas, uma promessa de pagamento — de um banco, de uma empresa, de um gestor. A qualidade dessa promessa depende de quem está por trás dela, não do nome do produto. O caso do Banco Master é um bom lembrete disso: a instituição cresceu rápido nos últimos anos — seu patrimônio líquido chegou a R$ 4,7 bilhões e o total de ativos atingiu R$ 63 bilhões, ante R$ 36 bilhões no ano anterior, com as operações de crédito se multiplicando mais de treze vezes entre 2021 e 2024.

Vista de fora, essa curva de crescimento parecia solidez, porém a investigação que se seguiu revelou uma estrutura de controles bem mais frágil do que os números sugeriam e apesar de formalmente regulada e auditada, a instituição não contava com mecanismos reais de controle interno. O banco foi liquidado pelo Banco Central no fim de 2025, e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) precisou ser acionado para ressarcir os correntistas — um lembrete de que o FGC, dentro do seu limite de cobertura, costuma ser a rede de proteção mais concreta em renda fixa, mais do que o nome do produto em si. 

O convidado do podcast reforça esse ponto com uma expressão simples: olhar além da lâmina. Vale a pena, sempre que possível, entender quem emite o papel e o que sustenta a capacidade de pagamento — não apenas a taxa oferecida. 

O outro eixo da conversa é sobre fundos “D+1” — aqueles que prometem resgate rápido, mesmo investindo em ativos que nem sempre têm liquidez imediata na mesma velocidade. Isso ficou visível neste ano: o Itaú BBA estima uma captação líquida negativa de R$ 96 bilhões nos fundos de crédito privado apenas no primeiro semestre de 2026, um movimento de resgates que aumentou a oferta de papéis no mercado secundário e ampliou os spreads. Debêntures incentivadas de infraestrutura, que têm prazos mais longos, sentiram esse efeito com mais intensidade — justamente por terem duration (prazo médio ponderado que o investidor leva para receber de volta todo o dinheiro aplicado em um título) mais longa e maior sensibilidade à marcação a mercado. 

Isso não significa que esses papéis pioraram de qualidade. Significa que preço e risco de crédito são coisas diferentes: um ativo pode ter fundamentos sólidos e, ainda assim, oscilar de preço no curto prazo simplesmente porque a demanda do mercado mudou. Entender essa diferença ajuda a não estranhar (ou reagir de forma precipitada a) uma cota que caiu num mês, mesmo sem nenhum problema real por trás. 

Juntando a conversa do podcast com o que o mercado mostrou este ano, fica um convite simples: antes de olhar apenas para a rentabilidade anunciada, vale perguntar quem é o emissor por trás do papel, se a liquidez prometida é compatível com o prazo real do investimento, e como esse ativo tende a se comportar se o cenário mudar. Além disso, estar ciente de que fundos de crédito privado oscilam e nem sempre entregam uma rentabilidade de 100% do CDI. Renda fixa continua sendo uma parte importante — e geralmente mais previsível — de qualquer carteira. Só vale lembrar que “mais previsível” não é o mesmo que “sem risco nenhum”. 

Fonte: Estela Borgheri