Érica Polo João Vitor Revedilho e Matheus Almeida
O sequestro de Nicolás Maduro, ex–presidente da Venezuela, no último final de semana a mando do presidente norte-americano Donald Trump, é um fato que se desdobra em ondas de choque de curto, médio e longo prazos. O foco do movimento, contudo, é dar início a um processo de estrangulamento do poder econômico da China junto à América Latina em meio a um contexto de redesenho de ordem geopolítica global.
Um olhar atento às cifras ajuda a entender o jogo: em 24 anos, as trocas comerciais entre chineses e latino-americanos – com um papel estratégico do Brasil na região –, saltou de US$ 10 bilhões em 2000 para mais de US$ 500 bilhões em 2024, cifra alcançada pela primeira vez. O dado foi entregue pelo próprio presidente chinês, Xi Jinping, em maio de 2025.
Mesmo em meio à trégua comercial negociada entre Trump e Xi em outubro passado, nenhuma das duas maiores potências globais quer depender economicamente da outra, e as disputas devem ficar mais acirradas em alimentos, combustíveis e elementos como as terras raras, que servem como matéria–prima para as indústrias de tecnologia, automotiva e de defesa. Em meio ao contexto, o produto da vez é o petróleo.

Ricardo Stuckert / PR
Analistas ouvidos pela IstoÉ Dinheiro destacam que é preciso, contudo, observar os desdobramentos políticos regionais para entender mais claramente os próximos passos do presidente norte–americano.
Apesar da intervenção e das duras críticas de Trump ao regime chavista – o controle do narcotráfico foi a razão aparente para a captura de Maduro pelos Estados Unidos –, a Venezuela manteve o mesmo grupo político no poder, com Delcy Rodríguez (vice de Maduro) como presidente.
Ela tomou posse em um ambiente com os contornos do mesmo duro regime, inflando a desconfiança e gerando confusão para os venezuelanos – um sinal que a truculência segue foi a prisão de 14 jornalistas. Sobre a entrega de 50 milhões de barris de petróleo sancionado aos Estados Unidos, afirmação feita por Trump na terça, 6, a mandatária só disse, por enquanto, que seu país está aberto a relações energéticas em que todas as partes possam se beneficiar.
‘Nova ordem energética mundial’
Os Estados Unidos querem levar de volta suas petroleiras para os campos da Venezuela, um país integrante da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) que detém a maior reserva do mundo, com 300 bilhões de barris.
O país está à frente da Arábia Saudita, com reservas de 250 bilhões de barris. Mas, com uma indústria sucateada, os latinos produzem hoje apenas 1 milhão de barris/dia e representa 1% da produção global, e ocupam a 21ª colocação na lista de produtores liderada pelos Estados Unidos, seguido de China e Índia, indica a International Energy Agency (IEA).
Especialistas em energia entendem que a sede imediata por petróleo dos americanos é grande, mas não a ponto de justificar sozinha um movimento tão drástico de Trump (o país produz 13 bilhões de barris por dia). Na visão deles, o que os Estados Unidos querem é o controle das reservas como forma de cacifar seu poderio no tabuleiro geoeconômico internacional.
“O interesse deles é ter a maior reserva do mundo à disposição para ser explorada pelas empresas americanas, que detêm tecnologia de operação”, diz o economista Adriano Pires, diretor fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). “Se Trump tiver esse controle, dá um xeque-mate na China”, continua.
É que além de os chineses serem o segundo país maior consumidor de óleo do mundo, vinham cultivando um movimento de aproximação junto à Venezuela para garantir o fornecimento em anos recentes. Os asiáticos cederam em préstimos ao país por meio de banco de fomento, que estavam sendo pagos em petróleo.
Com a maior reserva de petróleo do mundo sob o braço, Trump pode interferir na produção e consequentemente na oferta global, e até mesmo esvaziar a OPEP, disse Pires. “Eu acho que ele quer refundar uma nova ordem energética mundial, criando uma espécie de pequena OPEP para ele”.
Embora em linha com a leitura, o especialista em geopolítica João Alfredo Lopes Nyegray fez algumas pontuações. A China é relevante para o escoamento do petróleo venezuelano, porém ela não depende existencialmente desse fluxo.
“Em 2025, estimativas de traders evidenciam que a Venezuela representou cerca de 4% das compras chinesas do óleo”, disse Nyegray, que coordena o Observatório de Negócios Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). O que dá racionalidade geopolítica à estratégia, opina, não é cortar a energia da China, mas usar o petróleo venezuelano como peça de negociação para aumentar a capacidade norte-americana de gerir oferta (e consequente impacto em preços), destinos e receitas setoriais.
“Mas é importante ressaltar que apesar da possibilidade de pressão em preços a médio prazo, nem essa relação de maior oferta e menor preço é garantida. É que em momentos de cotação baixa do petróleo, como atualmente, as companhias tendem a ser mais criteriosas em seus investimentos. Acabam evitando alguns projetos que possam considerar mais incertos ou ajustam a produção”, diz Ruy Hungria, analista da Empiricus Research.
Sobre a China, especificamente, a situação se complicaria em uma eventual intervenção no Irã, por exemplo, que representa aproximadamente 15% de suas importações deles. “É cerca de quatro vezes mais que a Venezuela”, afirma Hungria.
Há expectativa, agora, de retomada de investimentos nos campos venezuelanos, bastante sucateados depois que Hugo Chávez concentrou a exploração de petróleo na estatal do país, a PDVSA, há cerca de duas décadas. À época, as operações no país estavam nas mãos de gigantes americanas, Chevron, ExxonMobil e ConocoPhillips. Só a Chevron ficou na Venezuela e mantém operações até hoje.
A questão central é o volume necessário de investimentos locais para extrair mais petróleo venezuelano, visto que o estado dos campos é desconhecido, avaliam os especialistas, e também qual é o apetite ou o calibre da capacidade de investimentos das petroleiras por lá, já que os preços do óleo estão em queda em anos recentes.
Por conta desse cenário, é difícil projetar quando poderá ocorrer o efeito baixista para os preços no mercado internacional com uma alta de produção na Venezuela. Os economistas citam “médio prazo” sem arriscar cravar número de anos aproximado.
E o Brasil?
Para o Brasil, as consequências dos fatos parecem mistas. Evidentemente, o preço de petróleo em baixa não contribui para o lucro da Petrobras e de outras companhias petroleiras, reforça Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria.
Mais um ponto negativo é a abertura de um novo front de interesse para investidores, dividindo os interesses de alocação de recursos no setor em projetos na Margem Equatorial brasileira – que recebeu sinal verde de exploração do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) no final de 2025 – e na Venezuela.
Mas, ao mesmo tempo, o quadro pode abrir oportunidades de exploração futuras na Venezuela, comenta Pires. Ademais, do ponto de vista de exportações, as brasileiras podem elevar seus embarques à China. “O mercado asiático, particularmente, fica mais favorável para o Brasil na medida em que houver desvio do abastecimento do petróleo venezuelano”, disse o economista Simão Silber, professor da Universidade de São Paulo (USP).
Além do petróleo, o movimento de Trump transforma a Venezuela em uma vitrine de coerção para outros parceiros do Sul Global, disse ainda Nyegray, da PUCPR. A estratégia pode já ter funcionado. Nesta mesma semana, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e Trump tiveram a primeira conversa telefônica depois de pronunciamentos marcados por hostilidade.
Após meia hora de telefonema, Petro falou à população colombiana e arrefeceu o tom bélico que vinha marcando ataques públicos entre os dois mandatários. Trump chamou Petro de “homem doente” e disse que uma operação militar contra a Colômbia soava bem – no discurso, o foco em controlar o tráfico de drogas na região.
Mas, segundo o noticiário, Trump e Petro tiveram uma conversa “amigável” e uma reunião na Casa Branca pode ocorrer em breve. Na conversa, o colombiano defendeu uma aliança em torno do potencial de geração de energia limpa da América do Sul – mesmo com a clara posição do americano em defender (e turbinar) os combustíveis fósseis. É esperar para ver.
Resposta do petróleo
Diferentemente de outras grandes crises geopolíticas que eclodiram nos últimos anos — como o início da guerra em Gaza ou a invasão russa na Ucrânia — a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos pouco impactou, ao menos em curtíssimo prazo, os preços do petróleo.

REUTERS/Daniel Cole
Ocorreu, contudo, um pico de alta das ações de petroleiras americanas na segunda-feira, 5, com uma posterior correção. Mas os papéis ainda assim mantiveram-se em patamar mais valorizado com a expectativa da atividade das petroleiras nas reservas venezuelanas. As ações da Petrobras, contudo, perderam com o cenário devido à expectativa da queda e preços do óleo a médio prazo (veja mais na página 18).
A reação imediata tímida dos mercados é explicada por incertezas que ainda pairam sobre os desdobramentos políticos na região. A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos ocorreu num cenário de preço do petróleo já pressionados.
Em 2025, o preço do barril do tipo WTI (referência de preços norte-americanos) recuou 19,9%, maior declínio porcentual desde 2020. Já o Brent (referência europeia) caiu cerca de 14,3% no ano. O barril está cotado perto de US$ 60, e baliza decisões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), grupo de países produtores.