Domingetti e Carvalho tentaram negociar vacinas com governadores e prefeitos e CPI está de posse dos áudios
Troca de mensagens entre Cristiano Carvalho, representante da Davati no Brasil, e Luiz Dominghetti, que presta serviços informalmente para a empresa, revela que, para vender vacinas da AstraZeneca e da Janssen, os dois procuraram desde o Ministério da Saúde a governadores e prefeitos. A CNN teve acesso a diálogos entre os dois – os áudios estão com a CPI da Pandemia.
As conversas citam nomes de políticos e parceiros que os ajudariam a chegar a encarregados pela compra de vacinas nos governos federal e locais.
Em uma das conversas, Dominghetti, que também é policial militar, afirma a Carvalho que “diversas propostas” foram enviadas aos “consórcios de governadores e demais estados e municípios”.
As oportunidades de fechar negócio eram batizadas de "fumaça" ou "fumaceiro", uma forma de ressaltar que a negociação exigia mais pressa e atenção. "Já, já vou enviar 5 intenções de compras assinadas por governadores totalizando 50 mm doses (abreviação para milhões). Já estou finalizando aqui. Johnson & Johnson. Todas com marca d'água, tudo oficialmente", ressalta.
Dias depois, em 30 de março, o próprio Dominghetti se surpreende com o volume de ligações que ele diz estar recebendo de interessados em vacinas. Em tom de espanto, afirma a Carvalho: "Vixe Maria. O mundo atrás de mim. Entro em call (chamada de vídeo) em cada 5 min. Amanhã o dia todo nisso, desde prefeito a governador, ministério. Misericórdia".
No dia 10 de abril deste ano, Dominghetti afirma a Carvalho que está fechando a venda de medicamentos com o governo de Roraima e mais duas redes privadas de hospitais.
Entrave bancário
No dia 26 de março, Dominghetti e Carvalho apontam que a escolha do banco para o pagamento dos produtos seria fator determinante para concretizar a venda.
Dominghetti diz que Guerra, que seria coronel Guerra, seu contato nos Estados Unidos, havia informado que não aceitava LC (carta crédito), nem pagamentos feitos pelo Banco do Brasil. A forma sugerida é a utilização de banco com sede nos Estados Unidos. A CPI acredita que essa escolha dificultaria o registro de recebimento de recursos em uma eventual quebra de sigilo bancário e fiscal. Carvalho endossa que Guerra já alertara que seria "mais fácil um banco top 10". Dominghetti faz a ressalva de que esta não é a realidade de muitos municípios. "Ou seja, a maioria", reforça.
Para chegar a prefeitos, de acordo com as mensagens, a interlocução seria feita pela Senah, a empresa particular chamada de Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários, comandada pelo reverendo Amilton Gomes de Paula, que será ouvido pela CPI depois do recesso parlamentar. "A FNP está com a Senah", afirma Dominguetti a Carvalho, no dia 22 de março. FNP é a sigla para Frente Nacional de Prefeitos. O policial complementa "muitos municípios vão enviar pela FNP", referindo-se à proposta de compra. Sem citar o nome, ele afirma não saber como o prefeito de Montes Claros teria conseguido seu número de telefone e ligado. Carvalho responde "que eu saiba, o deputado Paulo Guedes, de MG, que passou o meu contato. Não fui procurado por ninguém da FNP até agora ou falando em nome dela".