Brasil não virou ‘queridinho do mercado’ e precisa de reformas, diz economista

2 de março de 2026 21

Apesar da queda significativa do dólar e dos recordes seguidos da bolsa de valores, o Brasil não virou o “queridinho” do mercado a ponto de atrair recursos ilimitados para o país. A avaliação é de Marcello Estevão, economista-chefe do IIF (Instituto Internacional de Finanças), entidade com sede em Washington que reúne mais de 400 instituições financeiras de aproximadamente 60 países.

Em entrevista ao PlatôBR, Estevão afirma que reformas estruturais e uma agenda focada em aumento de produtividade são necessárias para que o país volte a crescer e atrair investimentos. Ex-secretário de assuntos internacionais do Ministério da Fazenda no governo Michel Temer, ele defende que o Brasil precisa aproveitar o momento global favorável para reforçar o arcabouço fiscal e melhorar a qualidade do gasto público.

O nível de atividade da economia global em 2026 tem surpreendido positivamente?
A economia global está crescendo de uma forma que alguns analistas acham que é melhor do que era esperado, mas muitos deles esperavam uma política de tarifas do governo Trump muito mais dura do que foi. Houve um aumento significativo de tarifas, relevante, que afeta transações comerciais e crescimento, mas essa elevação foi menos radical do que foi proposto pelo presidente dos Estados Unidos em 2 de abril do ano passado. Há um sentimento de alívio, em certo sentido, e a economia global continua se movendo. O crescimento do comércio global foi relativamente robusto no ano passado e parece que vai continuar crescendo de uma forma razoável.

Os Estados Unidos também têm surpreendido?
O problema dessa avaliação é que não é possível observar o que aconteceria com a economia mundial na ausência dessas políticas americanas. Se conseguíssemos estimar esse cenário alternativo, eu diria que a economia mundial não está indo tão bem. Os Estados Unidos teriam crescido mais do que cresceram se não fosse essa política tarifária. A força do crescimento americano tem vindo da parte estrutural que é essa capacidade da economia de inovar e monetizar essa inovação de forma mais eficiente que em outros lugares. Isso é uma característica estrutural americana e há esse choque tecnológico que puxa a economia para cima.

Mas esse impulso tecnológico vai sustentar o crescimento global?
A difusão dessa força estrutural tecnológica está fraca. O desempenho do mercado de trabalho americano não foi bom no ano passado. 2025 foi o ano com menor crescimento do emprego desde 2003, quando excluídas a recessão de 2008 e os anos do coronavírus. O que estou querendo dizer é que a a economia mundial tem força, a economia americana puxa o crescimento mundial, mas esse crescimento é bem estreito, baseado na força do setor tecnológico. 

E como isso se conecta à fraqueza global do dólar?
O dólar tende a se enfraquecer quando cresce a incerteza sobre a política econômica americana e sobre a trajetória de longo prazo dos Estados Unidos. Além disso, as taxas longas se estabilizaram e diminuiu o risco de um aperto adicional do Fed [Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos], em parte porque a autoridade monetária americana acompanha com atenção o mercado de trabalho. Esse conjunto cria um ambiente de maior apetite por risco e por busca de rendimento.

O que muda para mercados emergentes, especialmente para o Brasil?
O que muda é mais a margem do cenário global do que a estrutura economia do país. Com o dólar relativamente mais fraco e menor probabilidade de aperto adicional de juros nos Estados Unidos, países emergentes voltam ao radar dos investidores. Nesse contexto de recomposição de portfólio, o Brasil se beneficia.

Por que o Brasil aparece como destino desses fluxos, mesmo em ano eleitoral?
Porque combina três elementos. Primeiro, juros reais ainda elevados, o que atrai capital de curto prazo e operações de carry trade [estratégia de retorno com diferencial de juros]. Segundo, um mercado financeiro profundo e líquido, capaz de absorver fluxos relevantes. Terceiro, instituições monetárias que transmitem estabilidade.

Esse cenário é permanente?
É crucial deixar claro: essa é uma vantagem relativa e conjuntural, não uma transformação estrutural. Não significa que o Brasil virou o “queridinho do mercado”. O investidor global olha para retorno ajustado ao risco. Hoje, o Brasil oferece retorno elevado e liquidez, mas isso pode mudar rapidamente se o ambiente externo se alterar ou se a trajetória fiscal doméstica gerar dúvidas adicionais. Em um ano eleitoral, é importante que o debate enfrente o problema fiscal, porque as contas públicas não são sustentáveis no longo prazo.

Há algum fator real da economia, além do financeiro, que favoreça o Brasil?
Sim, na margem. A reorganização geopolítica do comércio, a fragmentação de cadeias globais e a busca por fornecedores alternativos tendem a beneficiar países médios exportadores de commodities agrícolas e minerais, como o Brasil. Ainda assim, é preciso distinguir crescimento cíclico de crescimento potencial. O Brasil pode ir bem em um ano específico, mas o crescimento estrutural segue limitado por baixa produtividade, investimento insuficiente e restrições fiscais.

Quais são os principais riscos para esse ambiente mais favorável?
Eu resumiria em três frentes. A primeira é externa. Se a inflação nos Estados Unidos surpreender para cima, o Fed pode manter juros altos por mais tempo, o dólar pode se fortalecer e os fluxos para emergentes podem reverter. A segunda é doméstica. A trajetória fiscal é o principal ponto de atenção. Juros estruturalmente altos refletem prêmio de risco. Sem uma ancoragem fiscal mais sólida, o Brasil continua vulnerável a choques. A terceira é a China. Como exportador de commodities, o Brasil segue exposto ao ciclo chinês. A China tenta uma transição para um crescimento mais baseado em consumo interno. Se essa transição reduzir ou alterar o padrão de importações, isso muda a demanda por commodities e aumenta a incerteza para as exportações brasileiras.

O que o Brasil deveria fazer para aproveitar essa janela?
Aproveitar a oportunidade para avançar numa agenda estruturante: fortalecer o arcabouço fiscal, melhorar a qualidade do gasto público e implementar reformas que aumentem a produtividade. Uma abertura maior da economia também pode contribuir para elevar produtividade. A ideia é usar a janela favorável para reduzir vulnerabilidades e melhorar o crescimento potencial.

Fonte: Antonio Temóteo