A ilusão da autenticidade: como a ia redefine a criação e o trabalho

26 de maio de 2026 19

Não há, no mundo contemporâneo, como fugir da tecnologia e de seus avanços. Pouco importa a resistência subjetiva de cada um: as inteligências artificiais já se tornaram presença ordinária na vida cotidiana. Estão nos aplicativos de transporte, nos mecanismos de busca, nos mapas, nas recomendações de consumo, nos sistemas de atendimento, nas ferramentas de escrita, nas imagens, nos vídeos, nas traduções e até nas pequenas decisões que organizam a rotina. Em muitos casos, quando falta uma palavra, uma estrutura, uma síntese ou uma solução rápida, recorremos ao Google, ao Gemini, ao ChatGPT, ao Claude ou a alguma ferramenta equivalente. A IA deixou de ser promessa distante. Passou a ser uma infraestrutura silenciosa da experiência contemporânea.

Essa presença, entretanto, não deve ser confundida automaticamente com democratização plena da comunicação, nem com um novo renascimento criativo, como alguns preferem anunciar com entusiasmo quase publicitário. A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária, mas continua sendo ferramenta. Como toda tecnologia de grande impacto, ela entrega soluções e inaugura problemas. Amplia capacidades, mas também desloca competências. Facilita processos, mas fragiliza funções antes consideradas estáveis. Em termos econômicos e sociais, não apenas cria novas ocupações: também enfraquece, substitui ou reconfigura formas inteiras de trabalho. E, no caso da IA generativa, há um ponto ainda mais delicado: sua capacidade de abalar a própria ideia de autenticidade.

Tomemos a criação de uma música. Ela pode nascer de uma letra fornecida a uma ferramenta generativa, de um trecho cantarolado pelo usuário, de uma sequência de notas sugerida por ele ou de um simples comando escrito em linguagem natural. Nesse cenário, quem é o autor? A pessoa que teve a intenção inicial? A máquina que combinou padrões? A empresa que desenvolveu o sistema? Ou o conjunto invisível de obras, dados e referências que alimentou o modelo? A resposta não é simples, porque a criação passa a ocorrer numa zona intermediária entre intenção humana, memória tecnológica e recombinação algorítmica.

Há quem sustente que nada produzido por IA pode ser verdadeiramente autêntico, pois sistemas artificiais não possuem consciência, experiência vivida, dor, desejo, memória existencial ou interioridade. Sob esse ponto de vista, a autenticidade não seria apenas resultado formal, mas expressão de uma presença humana concreta. Uma obra poderia ser tecnicamente eficiente, esteticamente convincente e até emocionalmente persuasiva, mas ainda assim careceria de origem interior. Seria uma aparência de criação, não uma criação no sentido pleno.

Por outro lado, também se pode argumentar que a intenção humana permanece decisiva. Sem o impulso de quem pede, orienta, escolhe, corrige, rejeita, combina e finaliza, aquela obra específica talvez nunca existisse. A IA, nesse caso, funcionaria como extensão de capacidade, não como substituta integral da autoria. Assim como a câmera não eliminou o olhar do fotógrafo, e o software de edição não anulou o diretor, a IA talvez não elimine necessariamente o criador. Ela apenas desloca o centro da criação para uma relação mais complexa entre comando, curadoria, repertório e decisão.

A questão, portanto, não é apenas técnica. É cultural, moral e institucional. A autenticidade importa porque sustenta a confiança. Em sociedades já marcadas pela desconfiança nas instituições, pela manipulação narrativa e pela erosão dos critérios de verdade, a expansão de conteúdos artificiais pode aprofundar a sensação de impessoalidade. Quando não se sabe se uma mensagem nasceu de uma consciência real ou de um sistema treinado para simular presença, a comunicação corre o risco de perder densidade humana. O problema não é apenas a IA produzir textos, imagens ou vozes. O problema é a dissolução gradual da diferença entre presença e simulação.

Ainda assim, a experiência cotidiana revela ambiguidades. Há pessoas que percebem nitidamente a frieza de certos conteúdos gerados por IA. Outras, porém, encontram em agentes artificiais uma forma de diálogo mais paciente, mais organizada e até mais acolhedora do que aquela oferecida por muitos interlocutores humanos. Uma amiga querida, por exemplo, conversa com um agente de IA que atua como professor de inglês e sente que ele a compreende melhor do que seu próprio psicólogo. O exemplo pode parecer desconcertante, mas expõe um ponto central: a autenticidade, para muitos, já não depende apenas da origem da mensagem, mas do efeito subjetivo que ela produz.

Esse deslocamento aparece também no trabalho intelectual e profissional. O economista Ricardo Amorim, em palestra recente, afirmou que suas apresentações melhoraram com o uso de ferramentas de IA, especialmente na preparação de gráficos, análises e materiais visuais. Ninguém deixará de reconhecer aquelas palestras como dele apenas porque parte da execução foi auxiliada por sistemas artificiais. A autoria, nesse caso, permanece associada à visão, à seleção, à responsabilidade e ao uso inteligente da ferramenta. A IA eleva a entrega, mas não substitui necessariamente o juízo humano que dá direção ao conjunto.

O mesmo raciocínio pode ser levado à moda, ao design, à arquitetura, à publicidade, à música, ao jornalismo e às artes visuais. Se um criador de prestígio internacional desenvolve modelos com auxílio de IA, o público provavelmente continuará atribuindo a ele a autoria, desde que reconheça coerência estética, intenção criativa e responsabilidade pelo resultado final. A confiança no nome, na trajetória e na assinatura ainda pesa. Contudo, à medida que o uso da IA se generaliza e raramente é declarado, torna-se cada vez mais difícil distinguir o que nasceu de elaboração direta, de colaboração tecnológica ou de mera terceirização algorítmica.

É nesse ponto que a discussão sobre direitos autorais, crédito e transparência se torna inevitável. A sociedade precisará redefinir o que entende por criação, autoria, originalidade e autenticidade. Não será suficiente repetir categorias antigas diante de instrumentos que alteram o processo criativo desde a origem. Também não será sensato demonizar a tecnologia como se ela fosse intrinsecamente fraudulenta. O desafio está em reconhecer a potência da ferramenta sem abdicar da responsabilidade humana por seu uso.

Talvez a conclusão mais honesta seja admitir que a autenticidade nunca foi uma pureza absoluta. Toda criação humana nasce de influências, memórias, imitações, referências e recombinações. A diferença é que a IA torna esse processo mais acelerado, opaco e industrializado. Ela revela, com brutal clareza, algo que o ego artístico muitas vezes prefere esquecer: há menos novidade debaixo do sol do que gostaríamos de admitir. A originalidade absoluta talvez seja rara; a responsabilidade pela intenção, pela escolha e pelo sentido, porém, continua sendo profundamente humana.

Assim, a pergunta decisiva não é apenas se uma obra feita com IA é autêntica. A pergunta mais séria é quem responde por ela. Quem assume sua intenção, seus limites, suas consequências e sua verdade possível? Se houver consciência, curadoria, responsabilidade e transparência, a IA pode ampliar a criação sem destruí-la. Mas, se for usada para mascarar vazio, simular profundidade ou substituir discernimento por aparência, então não estaremos diante de uma nova autenticidade. Estaremos apenas diante de uma ilusão tecnicamente bem produzida. 

(*) É doutor em Desenvolvimento Sócio-Ambiental, economista, escritor e poeta.

 

Fonte: https://oticadarazao.com/the-illusion-of-authenticity-creation-and-work/

Fonte: SILVIO PERSIVO
A POLITICA VISTA POR UM POETA ( SILVIO PERSIVO

Colaborador do quenoticias.com.br, Silvio Persivo é Economista com Doutorado em Desenvolvimento Sustentável pelo NAEA, escritor, poeta e professor de Economia Internacional e Planejamento Estratégico da UNIR. E-mail: silvio.persivo@gmail.com